A psicodelia brasileira em 10 discos

Caracterizada pelas experimentações, climas frenéticos e alucinógenos, a psicodelia brasileira é um gênero que reverbera até os dias de hoje. O movimento, que teve início durante os anos 60 na Califórnia e Reino Unido, flertava com as novas drogas da época. Foi nesse tempo, em meio a tantos diagnósticos de estados transcendentais e visões deturpadas sobre o mundo e a forma como vivemos, que muitos artistas sob efeito de substâncias ilícitas, gravaram discos e músicas que traziam composições extranaturais. Essas características andavam de mãos dadas com as filosofias do movimento hippie, que surgia na mesma época. Pregando a paz, amor, a não violência e a liberdade do ser humano diante da vida supérflua. A união desses movimentos deu luz a uma leva de artistas, que gravaram discos com temáticas psicodélicas, tais como: Pink Floyd, Beatles, Grateful Dead, Janis Joplin e The Doors. Psicodelia no Brasil No Brasil, o movimento começou na metade dos anos 60, e é inevitável mencionar Os Mutantes, talvez um dos maiores nomes nacionais da música psicodélica a conquistar grande sucesso internacional. Contudo, o gênero não se resume apenas a eles, temos outros grandes artistas e bandas que entraram na ”onda” da música viajada e gravaram discos que nos impressionam até hoje. Lembrando que naquela época a ditadura militar repreendia a liberdade de expressão. A originalidade foi com certeza um dos pontos altos e interessantes da nossa psicodelia brasileira. Devemos isso também ao movimento da Tropicália. Nesse período, as raízes da nossa música afloravam e foram muito bem incorporadas. O resultado foi único e majoritariamente brasileiro, algo que não entrava na rota de artistas estrangeiros. Os Mutantes em seu ”Panis et Circenses” de 1968 e Caetano Veloso em seu auto intitulado de 1968 ou Novos Baianos em seu primeiro disco são um bom exemplo disso. Novas temáticas eram novidade e foram sendo exploradas por alguns artistas. Jorge Ben em seu décimo primeiro disco ”A Tábua de Esmeralda” abordava com maestria o misticismo. Nordeste na rota da psicodelia brasileira Em meados de 70, especificamente no Recife, surgia também um movimento underground que viria pra acrescentar uma forte identidade a música popular chamado Udigrudi. Nele, jovens artistas e músicos utilizavam da contra cultura e do regionalismo para criar algo como uma ”sociedade paralela” ao sistema. Dessa forma, se expressavam através da música, teatro, cinema ou artes plásticas. Devemos merecidamente citar a banda pernambucana Ave Sangria. Eles fazem parte desse movimento e gravaram um dos melhores discos da época, o auto intitulado Ave Sangria de 1974. Além disso, muitos outros artistas como Alceu Valença, Marconi Notaro, Zé Ramalho, Lula Cortês e Robertinho do Recife conseguiram unir altas doses de psicodelia e música nordestina, misturando ritmos como xote, baião, forró e frevo. Essa sonoridade rica mostra a autenticidade dos artistas brasileiros ao participarem desse movimento mundial, trazendo suas próprias características para criar algo novo e fora dos padrões. A neo-psicodelia Anos mais tarde, a música psicodélica ainda mantinha sua força. O chamado neo psicodélico apresentava artistas e bandas da geração 2000, influenciados pelos veteranos que deram início ao movimento no Brasil e no mundo. Alguns seguiram caminhos sonoros diferentes, trazendo novos elementos a essa música. As últimas tecnologias, a possibilidade de usar instrumentos virtuais e produzir música dentro do próprio quarto, fizeram com que esses músicos resgatassem e também trouxessem novos moldes ao som. Enquanto ”lá fora” o Tame Impala surgia ainda tímido em meados de 2008 na capital de Perth, na Austrália, outros nomes hoje já bem conhecidos seguiam os mesmos passos, caso do The KVB, Melody’s Echo Chamber e Temples. Enquanto isso, aqui no Brasil ótimos nomes foram surgindo entre os anos 80, 90 e início dos anos 2000. Precisamos citar nomes como Júpiter Maçã, Violeta de Outono, que mostrou uma baita qualidade em seu disco de estreia. E também a Mopho, que teve seu primeiro disco gravado apenas em 2000. A nova geração segue muito bem representada por Supercordas, Boogarins, Tagore, My Magical Glowing Lens, Glue Trip entre muitos outros. A discografia nacional do gênero é vasta, mas conseguimos separar pelo menos dez discos importantes do início dessa época e outros mais atuais que representam muito bem o Brasil. Fique com essas dez pérolas da nossa música. Por fim, se você quiser conhecer melhor os discos psicodélicos brasileiros, existem três livros lançados pelo jornalista Bento Araújo. Os materiais foram batizados de Lindo Sonho Delirante, e possuem três volumes, onde ela comenta sobre os 100 discos dessas épocas, conhecida como uma das mais criativas da música brasileira. Os Brazões – Os Brazões (1968) Mesmo sem grandes histórias ou curiosidades, sabemos que Os Brazões surgiram no ano de 1968. Nessa época a tropicália estava em seu auge, eles foram suporte de artistas como Gal Costa e Tom Zé. Em seu primeiro e único registro, trouxeram uma bela fusão da música psicodélica a momentos mais regionais também juntamente com a pegada do rock ‘n’ roll. Caetano Veloso – Caetano Veloso (1968) Em seu primeiro disco lançado em 1968, Caetano Veloso emplaca músicas que até hoje fazem sucesso em sua carreira, como as faixas ”Tropicália” e ”Alegria, Alegria”, que inclusive já virou trilha de novela. Embora esse seja um destaque da Tropicália, Caetano traz influências da psicodelia seja nas guitarras ou teclados, a faixa ‘Eles’ é a mais psicodélica do disco e inclusive tem uma menção aos Mutantes. O visual da capa se destaca, com cores contrastantes e uma imagem surrealista de uma mulher segurando um dragão. Gal Costa – Gal (1969) Gal Costa entra com pé direito na psicodélica ao lançar seu terceiro disco. Começando pela arte da capa, a mistura de cores extravagantes, criaturas entrelaças em si, um clima meio subliminar, que é uma forte estética do gênero. A sonoridade parte do rock ‘n’ roll da faixa “Cinema Olympia”, a momentos muito mais experimentais. Quem não conhece a fase antiga da Gal pode até se surpreender com suas potências vocais, gritos, sussurros, e outros sons irreconhecíveis. Ela foi praticamente a nossa ”Janis Joplin brasileira”. A faixa ”Objeto sim, Objeto
Quem indica: Crime Caqui

A Crime Caqui é um quarteto de mulheres formado por Fernanda (bateria, vocal), Larissa (guitarra), Mayara (guitarra, vocal) e Yolanda (baixo, vocal). Elas vem da cidade de Sorocaba, que convenhamos, tem uma das melhores cenas do indie nacional. Até o momento lançaram três músicas, ‘Somos Demais‘, ‘Somos Demais II’ e a mais recente ‘Your Forehead’. Falando sobre sonoridade, a Crime Caqui busca transitar entre as brasilidades, dream pop, post-rock e indie, com composições intensas e também sensíveis. Logo abaixo você vai conferir o apanhado de ótimas referências que elas possuem, inclusive, uma das melhores listas que já passaram por aqui. Os links para seguir a banda nas redes sociais estão no fim da matéria, prestigiem as mulheres do cenário independente! Confira também o vídeo para o novo single ‘Your Forehead’: Escolhas da Crime Caqui: Warpaint – Heads Up (2016) “Warpaint foi a banda que de certa forma nos uniu pra tocar. Nos espelhamos muito nelas e nesse álbum delicioso.“ fernanda:Beach House – Devotion (2008) Lembro de escutar pela primeira vez e me sentir muito identificada e curiosa com as sonoridades dream pop do grupo, me influencia até hoje. A constância no som do Beach House às vezes me faz pensar “queria ser assim com minha vida” haha. Referência sonora e pra vida. larissa:Interpol – Turn on the Bright Lights (2002) Me marcou quando foi lançado, eu era adolescente e estava aprendendo a tocar e esse disco me influenciou bastante nesse sentido, me despertando para os efeitos de guitarra. Adoro as transições suaves e as camadas de instrumentos, escuto com muito carinho até hoje, sempre me inspira. mayara:Avril Lavigne – Under My Skin (2001) Me lembro deste disco ter sido um divisor d’água na minha vida. Aquelas guitarras distorcidas e a potência na voz daquela garota super Rock ‘n Roll andando de bermuda larga e tocando guitarra foi tudo pra mim. Eu estava passando daquele estágio de criança pra pré-adolescente, então, foi peça chave na formação da minha identidade e em ter o rock como um estilo de vida. Foi também quando comecei a me vislumbrar como artista, guitarrista e cantora e a ter o sonho da banda própria haha. Super referência ♡ yolanda:Gal Costa – Gal Costa (1968) Nunca tinha ouvido esse clássico com atenção até bem pouco tempo atrás e se tornou um dos preferido da vida. Eu amo muito esse vocal suave e estridente da Gal e a liberdade com que, junto aos arranjos das músicas, transita entre o tropicalismo, a bossa nova, a música de festival, a psicodelia, o rock and roll. Pra mim, uma referência e inspiração imensa da música pop produzida no Brasil. Siga a Crime Caqui nas redes sociais: Facebook Instagram Bandcamp
Desbravando a cena musical da Islândia, 14 artistas para conhecer

A música islandesa tem sido uma das principais buscas nos últimos anos
Trio alemão Lucie and the Robot traz nostalgia dos anos 90 no single ‘Birdseyeview’

O início da banda e as influências Berlin é a capital com uma das cenas musicais mais agitadas e férteis do mundo, principalmente na música eletrônica, é de lá que vem o Lucie and the Robot, um trio de synthpop. A banda surgiu em 2019, quando a produtora e compositora Lucie convidou outros dois integrantes, o baterista Paul Richter e o tecladista Hannes Marget para apresentarem suas músicas ao vivo. Os músicos já traziam experiências de suas cenas musicais. Lucie vinha do jazz e música clássica, gêneros que estudou durante sua infância e adolescência. Suas preparações como vocalista e violinista fizeram com que ela tivesse também um forte apreço por melodias. Por volta de seus 20 anos ela foi desenvolvendo mais habilidades, e assim deu vida ao projeto Lucia Fields. Além disso, participou também de performances teatrais com o grupo experimental Die Ratgeber. Assim como Lucie, o tecladista Hannes também vinha do jazz e música eletrônica. Já Paul Richter, o baterista, vem do Pink Turns Blue, banda com 10 discos lançados, e que ficou famosa durante os anos 80, na cena pós-punk e new wave. Hoje continuam na ativa, o último disco foi lançado em 2016. Mesmo vindo de cenas diferentes, os membros tinham objetivos em comum. Então, resolveram se juntar para compor novas músicas, produzidas por Lucie e Hannes em parceria com outros produtores. Entre as influências musicais estão artistas como Björk, Sia, Sevdaliza e bandas do synthpop oitentista como Depeche Mode. Outros produtores musicais contemporâneos como a venezuelana Arca e o Flying Lotus também entram em seus artistas favoritos. O EP Perspectives e o novo single ‘Birdseyeview‘ O primeiro lançamento do Lucie & the Robot foi o EP Perspectives, lançado nesse ano, o disco traz duas músicas: ‘Like the Weather’ e ‘Changed’, caminhando mais para o synthpop. No entanto, o mais recente é o single ‘Birdseyeview‘. A música tem aquele clima nostálgico do trip hop feito durante a década de 90, época de seu auge. O instrumental e a voz doce de Lucie são cativantes, o refrão é daqueles que grudam na sua cabeça por dias. Não vou mentir que nos lembra facilmente algo entre Björk e Morcheeba. Interessante mencionar o quanto esse tipo de música nunca sai da moda, mesmo nos dias de hoje ele continua interessante e moderno. Não é toa que muitas bandas ainda estão na ativa e lançando músicas novas. O single vai ganhar um vídeo oficial que sairá em breve, além disso, estamos no aguardo de mais música. A banda está preparando um novo single, previsto para outubro desse ano. Siga Lucie & the Robot nas redes sociais: Facebook | Instagram | Site Conheça mais artistas também nessa matéria: Especial: Groover Artistas
Temas atuais e experimentação fazem parte de ‘Quarantine Songs’ novo disco de Dominick

Ao mesmo tempo em que vivemos momentos complicados de uma quarentena, com novas práticas sociais ou tendo que lidar com uma enxurrada de notícias desanimadoras, existe uma vontade intensa em externar nossos sentimentos ao produzir arte. Hoje viemos falar do segundo e novo disco de Dominick, o ‘Quarantine Songs’. Dominick é o projeto do músico brasileiro Matheus Dominick. Um jovem carioca do município de São Gonçalo no Rio de Janeiro, mas que hoje reside em Londres, na Inglaterra. Matheus é filho de pais religiosos, começou sua jornada musical aos 12 anos tocando pandeiro em uma igreja. Mais tarde ele integrou a banda Bugio a Bordo, e posteriormente formou um duo com Guilherme Gak chamada Meet Me at the Trip. O novo disco e o impacto de temas atuais ‘Quarantine Songs’, esse é o título do segundo disco com nove músicas e que marca a transição do músico, de um dos municípios mais violentos do Rio de Janeiro para Londres, uma capital agitada e que pode trazer inúmeras possibilidades. Além disso, o cenário bizarro que vivemos em nosso país é um dos pontos que se destacam em suas letras. Aqui ele aborda temas bem como: capitalismo, o medo diante da pandemia, os crimes ambientais e a brutalidade da polícia, que cada vez mais se tornou rotineira e tem sido destaque nas notícias. Todos esses assuntos foram um prato cheio para suas composições. A sonoridade segue entre os experimentos, trazendo algumas influências do indie lo-fi como em ‘Am I Moving My Head?’, e até um clima mais tropicália como na faixa ‘III’ que inclusive é cantada em português. Já as músicas ‘The Hanged Man’ e ‘City is Calling My Name’ abusam mais dos synths e batidas eletrônicas com uma pegada anos 80, mantendo uma certa introspecção vinda do lo-fi. Outro destaque é ‘Pooh the Bear’, com uma produção mais barulhenta dividindo espaços com guitarras bem distorcidas. O processo de gravação foi feito em casa, já a masterização e mixagem ficou a cargo da gravadora O//QUARTO. Escute o disco Quarantine Songs: Siga Dominick nas redes sociais: Facebook | Instagram | Bandcamp | Soundcloud Conhece nossa seção Quem indica? Confira nesse LINK
Quem indica: This Lonely Crowd

A nossa sexta banda convidada para indicar seus 5 discos favoritos são os curitibanos da This Lonely Crowd. A banda vem de Curitiba, Paraná e classificam suas músicas como faerie rock, afinal seus discos exploram contos de fadas, poemas e também transitam entre vários gêneros. Já falamos sobre o último disco deles aqui. A discografia deles é de respeito e traz seis discos, uma coletânea de b-sides e covers e três EP’s. Atualmente eles estão em estúdio terminando a produção do novo disco que deverá sair ainda esse ano sob o título de ‘Bellelouder’. Indicações da banda: Lucifer – Lucifer II (2018) “60% Black Sabbath dos primeiros discos, 30% Heart e 10% Fleetwood Mac (ambos entre 75-78). Não tem como poderia ser melhor. Com certeza, um dos discos mais escutados por aqui nos últimos meses, junto com o novo álbum deles (Lucifer III, também excelente). Uma maneira majestosa de emular a sonoridade do rock pesado dos anos 70! “ Napalm Death – Throes of Joy in the Jaws of Defeatism (2020) ” Sempre. Obrigatório e mais relevante do que nunca. Napalm Death sempre vai ser furioso e eloquente. “ Caspian – Dust and Disquiet (2016) “Coisa finíssima. Uma faixa melhor do que a outra, riffs e arranjos excelentes, inspiradores e densos.” Denali – Denali (2003) “Pérola do começo dos anos 2000 de sonoridade obscura e encantadora. Só digo uma coisa: GUNNER!” JJ72 – JJ72 (2002) “Mais uma maravilha escondida e, infelizmente, pouco conhecida. O disco debut, de 2000, é uma amálgama de bons sons da época.“ Siga o This Lonely Crowd nas redes sociais: Facebook | Instagram | Bandcamp
weird fingers, o afago em dias cinzentos pelo novo EP

weird fingers é o projeto de Raad Ferreira, já falamos sobre ele aqui, um jovem músico que faz parte dessa nova geração que quebra os empecilhos ao se compor e produzir música. Ele é o responsável por todos os processos. Desde as composições, letras e produção que são feitas pelo celular em seu quarto. ‘Paisagens fugitivas’ é como foi batizado seu novo EP, esse já é seu sexto lançamento e marca um trabalho intenso, introspectivo e sentimental. Durante as quatro faixas, o músico externa explicitamente seus sentimentos, abordando temas como saúde mental, problemas familiares, financeiros e as relações modernas. Esses sentimentos conflitantes são envoltos por uma sonoridade amena, ruidosa e introspectiva, trazendo facilmente aquele clima de estar sozinho em um quarto escuro, deitado e olhando pela janela enquanto os minutos correm com os pensamentos ou até mesmo em uma caminhada solitária e sem destino. ”É música para quem sente que precisa de um abraço, pra quem chega de noite cansado e foge do mundo através dos fones de ouvido, pra quem pedala pra longe e tentado pela liberdade reluta em voltar.” Raad Ferreira (weird fingers) Entre suas principais influências musicais estão Keaton Henson, herbal tea, Oupa (projeto do Daniel Blumberg, ex-Yuck), José González, Grouper e fntsma. Todas as canções foram compostas e gravadas num celular em casa por Raad Ferreira durante a quarentena, antes de nascer o sol ou vendo ele se por. Compor e produzir música sem estúdios e selos de divulgação é algo desafiador e pode trazer aquele sentimento de limitação. Conta pra gente como funciona seu processo de composição, gravação e produção das músicas, quais equipamentos você costuma usar? Normalmente eu toco e canto algo espontâneo seguindo alguma ideia ou linhas que ando pensando no momento enquanto gravo no celular. Depois eu começo a gravar faixas de violão/outros instrumentos iniciais mas na verdade sem ter uma ideia muito clara de como a música vai se desenvolver até chegar na DAW. Aí na verdade acaba sendo uma coisa meio aleatória, ir ouvindo o som até pensar no que encaixar em harmonia (ou desarmonia), ir testando sintetizadores, vozes ecoando e tudo que dê pra criar o clima da música. Algumas músicas também são de gravação bem crua, só aperta o rec e segue a ideia junto com o sentimento, depois eu vejo o que fica legal ali de arrumar na sonoridade… aumentar as camadas, reverberar etc… Real que eu gosto de brincar com os efeitos até chegar onde quero. Já é uma premissa dos seus trabalhos terem uma identidade que parte do lo-fi, folk, e drone. Você pensa em manter essa sonoridade em suas composições futuras ou gostaria de experimentar novas sonoridades? Quero e tento criar uma identidade diferente em cada trabalho, mas a sonoridade segue na mesma intenção de criar que soe distante, submerso, meio sombrio. Eu vivo cheio de ideia de coisas pra inventar e é sempre no último minuto que eu sigo algum caminho, mas as ideias que venho criando são de expandir a instrumentação, gravar mais canções com bateria/guitarra e um ritmo lento. Se você pudesse escolher apenas uma das suas músicas para fazer parte da trilha sonora de um filme, qual seria a música e o filme escolhidos? Essa pergunta é perfeita!!! Muita coisa que eu faço é pensando em alguma cena sabe? Não sei se faz muito sentido pra todo mundo que ouve mas eu componho/escuto visualizando cenas de um filme que não existe realmente, meio que feito por memórias sei lá… Enfim, acho que “desculpa tudo bem oi” nas cenas iniciais do filme “Árabia”, dirigido por João Dumans e Affonso Uchoa. O que você diria para quem está pensando em compor músicas, mas ainda se sente inseguro ou limitado quanto a equipamentos? É importante saber o quanto aquela composição tá significando pra você. Independente de como for gravada, aquela importância persiste. E se é importante mesmo a gente corre atrás de fazer independente do material que tiver a disposição. As pessoas vão se ligar que tu fez seu melhor e carregou com sentimento. Insegurança precisa de amizade, alguém que tu confia e que sabe o valor do que cê tá fazendo. Tá lá pra ouvir teu som e dizer o que precisa porque sabe o quanto aquilo vale pra você. Siga o weird fingers nas redes sociais: Facebook | Youtube| Bandcamp
Lançamentos nacionais

Fizemos uma listinha com os últimos lançamentos nacionais de algumas bandas e artistas que já apareceram por aqui. Portanto, esse é o momento pra conhecer música nova e aproveitar também para adicionar música nova às suas playlists e ficar ligado no que tem surgido. É quinta-feira, mas não é desculpa pra não ligar o som alto e aproveitar. Adorável Clichê – Derrota (2020) O novo single “Derrota” marca o retorno da banda Adorável Clichê após dois anos desde o último disco lançado “O que existe dentro de mim’‘. Segundo eles, a letra da música busca explorar as faces e vozes internas e se desenvolve num fluxo de consciência que encara as insatisfações, busca refúgio no passar do tempo e depois decide se levantar e tentar novamente. A sonoridade aqui abusa mais dos synths e traz aquele ar nostálgico e de calmaria. Garbo – Eu gosto de não ter que me preocupar (2020) O cantor e compositor Garbo lançou mais um single inédito, esse já é o sexto após o lançamento de seu primeiro disco ”Jovens Inseguros Vivendo no Futuro” lançado em 2018. Segundo ele, a faixa ”Eu gosto de não ter que me preocupar” fala sobre a liberdade após o fim de um relacionamento abusivo. A sonoridade segue com influências da música pop, a letra foi escrita por Garbo e produzida por Diego Silveira (Cine) e Riff. Jardim Soma – The End (2020) Jardim Soma é o novo projeto de Luca Bori, baixista da banda Vivendo do Ócio. A música surge em um período após o primeiro disco ‘Antena’ lançado em 2019. Em ‘The End’ o músico mescla elementos do lo-fi, indie e tropicalismo, trazendo também novas estéticas. Todos os instrumentos foram gravados por ele, já a composição é de seu amigo pessoal Fábio Trummer. Tôrta – Iron Closet (2020) Aceitação e orgulho lésbico, essa é a mensagem de ‘Iron Closet’ nova música de Tôrta, projeto liderado por May Manão, integrante da banda Crime Caqui. A faixa ganhou um vídeo com um clima bem retrô de filmes em VHS, com bom humor mostra cenas de suas amigas dançando com fundos em chroma key por diversos lugares do mundo. O título faz referência a sair do armário e se aceitar. Diego Neves – Mexicana (2020) Em ‘Mexicana’, o cantor e compositor Diego Neves expressa sua homenagem aos amores vividos e sua relação com a cidade de Juiz de Fora em Minas Gerais. Durante a letra ele cita lugares conhecidos, inclusive, o nome da música vem de uma pastelaria famosa na cidade, o clipe oficial deverá ser lançado em breve devido a pandemia. Diego também é integrante da banda Legrand. Blanches – Weakness (2020) O Blanches vem de Sorocaba e é formado por José Cesar (vocal/guitarra), Ricardo Camargo (bateria), Gabriel Pasini (baixo) e Caio Lobo (guitarra), a banda surgiu neste ano durante a quarentena e lançaram ‘Weakness’, sua primeira música de trabalho. Ela fala sobre a relação afetiva de pessoas e as fraquezas e vulnerabilidades resultantes desse distanciamento forçado. Rocca – O Tigre e o Dragão (2020) ”O Tigre e o Dragão” é o novo single da banda cearense Rocca Vegas e mostra potencia e energia ao falar sobre equilíbrio e espiritualidade. A faixa foi produzida por Leo Ramos (Supercombo). O vocalista e guitarrista Maurílio Ramos explica o significado da música “o filme conta a história de duas lutadoras, mas em suma, frisa que toda escolha tem uma determinada consequência. A partir disso, fizemos um paralelo, ressaltando a importância das transformações em prol da nossa própria evolução espiritual”. Siga os artistas nas redes sociais: Adorável ClichêGarboJardim SomaTôrtaDiego NevesBlanchesRocca Acesse também a nossa seção Rebobinados indica
Nietts resgata pós punk enérgico e dançante em ‘Disco Inferno’

O pós punk é um dos meus gêneros favoritos, acho simplesmente incrível a aura que rodeia o gênero. Aquela estética preto e branco, dark, com influências de cinema, literatura, fotografia e obras de arte ou temas mais melancólicos. A junção do punk aos momentos mais melódicos, dançantes e sombrios. A cada banda nova surgindo fico felizão, e com a Nietts não foi diferente. Os encontrei nas buscas incessantes pela internet e também pelo Last.fm, inclusive, minha rede social favorita, lá estava o EP Disco Inferno e logo soltei o play. A Nietts surgiu em 2019 na cidade de São Paulo e conta com André Guimarães (guitarra/vocal), Allan Carvalho (bateria) e Luiz Fernando (baixo, vocal). A escolha do nome era algo que seria relativamente difícil, afinal, parece que todos os nomes possíveis e impossíveis já estão em uso, segundo o vocalista e guitarrista Andre: Depois de dias procurando nome pra banda, sem sucesso, porque todos os nomes que você imaginar já tem alguma banda no mundo usando, o Allan disse “então não põe nada”. Boa! Só que “Nada” já existe (pra variar). Aí procuramos em outras línguas. Niets é “Nada” em Holandês. Também já existe. Pra não desistir de ter um nome pra banda, estilizamos com mais um T, então ficou NIETTS. André (Nietts) Disco Inferno é o EP de estréia deles, foi composto durante o ano de 2019, gravado no Caffeine Sound Studio e produzido por Kleber Mariano e Andre Leal. As quatro faixas trazem uma sonoridade que faz jus ao pós punk da década de 80, junto de influências do rock alternativo que trazem um ar mais moderno, com uma pegada enérgica, dançante e sombria, que são premissas do gênero e agitam a pistinha. A música que abre o disco é ‘Bad Times’, que inclusive, mesmo com as limitações da pandemia ganhou vídeo oficial mostrando imagens de shows e captações caseiras. A ideia do clipe é passar para as pessoas algo que quase todo mundo viveu na pandemia, assistindo seus próprios demônios e mergulhando em seus pensamentos mais obscuros. André (Nietts) A produção e edição ficou a cargo de Allan Carvalho e as imagens por Nietts e Clóvis Stage Struck. As letras falam sobre a onda fascista que se instaurou no Brasil nos últimos dois anos. Você pode conferir o resultado abaixo: A banda se apresentou apenas duas vezes ao vivo, em dezembro de 2019 em Santo André no 74 Club como abertura para o Sky Down e Fuck Youth, e em fevereiro desse ano que marcou a despedida do baixista Zezito (Luiz Fernando) que se mudou para o Rio Grande do Sul. A substituição do ex baixista e planos futuros serão resolvidos apenas a pós-pandemia, ou seja, no momento sem previsões. — Como foi o processo de juntar a banda, compor e gravar o primeiro EP? Vocês tiveram alguma dificuldade durante esse processo ou tudo ocorreu tranquilamente? André – Eu conheci o Allan no começo do ano passado, no FFFront. Se eu não me engano era um show da Sky Down. Quem me apresentou ao Allan foi o Daniel Cardoso (Toro Roco e The Fingerprints), que na ocasião disse que a gente tinha que unir as influências de Melvins e afins e montar uma banda. Eu e o Allan vínhamos de uma carência musical, ambos sem bandas e de passado “Stoner Rock”. Por isso chegamos muito espontaneamente ao Post-Punk, combinando com nossa salada musical de Alternative, Indie, Disco, Grunge, etc. Para o baixo chamamos o Luiz (Lata do Lixo da História), que é meu amigo de longa data. Fevereiro à Dezembro de 2019 foi dedicado à composição de 6 músicas, de onde saíram as 4 músicas do EP Disco Inferno. 90% dos ensaios ocorreram em nossa segunda casa, o 74 Club, em Santo André/SP. Gravamos o EP em Janeiro deste ano, no Caffeine Sound Studio (estúdio que fechou as portas durante a pandemia), com produção de Kleber Mariano e Andre Leal, do Estúdio Jukebox (Volta Redonda/RJ). Durante o processo de Mix e Master veio a pandemia, que nos deixou que nem barata tonta e nos fez pausar o processo de produção do EP. Depois de levantar da paulada, decidimos finalizar a Masterização e lançar o trampo. O EP Disco Inferno é modesto e foi produzido com muito pé no chão, considerando nossas possibilidades, principalmente financeira. Não dá pra dizer que o processo necessariamente foi tranquilo, mas não tivemos problemas em prorrogar, já que não havia pressa. A letra de ‘Bad Times’ tem um tom político e se encaixa perfeitamente nos dias de hoje. Quais temas tiveram impacto na banda ao compor as músicas do EP? André – Tudo veio de uma naturalidade muito grande. A única ligação entre todas as letras é que a gente fala do que vive. Todas as letras são em 1ª pessoa. O fato de termos muito forte a questão ideológica, faz com que a gente fale dos problemas estruturais de nossa sociedade, de um ponto de vista individual. Bad Times fala da onda fascista, Antihero fala de iconoclastia, Fire In Your Eyes de questões afetivas e Soy Lo Que Soy foi inspirada no processo de transição de um homem trans. Como tem sido enfrentar os desafios de promover uma banda em meio a pandemia e o que vocês esperam fazer quando a situação voltar ao normal? André – Tá tudo muito doido, né? Eu não vejo o Allan desde 14 de Março, na semana anterior à quarentena. O Luiz eu vi antes disso ainda, já que ele havia se mudado para Rio do Sul/SC. Por enquanto não temos perspectivas nem de nos reunirmos para ensaio, já que estamos respeitando o isolamento, na medida do possível, considerando que somos obrigados a trabalhar e fazer outras coisas básicas. Também tem o fato de estarmos sem baixista. O primeiro passo, quando voltar a normalidade, é definir o baixo. Estávamos conversando com a Debb, da Gran Tormenta, então há fortes possibilidades dela ser a substituta. Depois disso queremos fazer shows e em paralelo compor um próximo