Two Witches reflete sobre o disco “The Vampire’s Kiss” mais de 30 anos após o seu lançamento.

english version Como prometido em nossa segunda edição da Cápsula, o fundador da banda, Jyrki Witch (vocal), e os outros membros atuais, Miss Blueberry (vocal e sintetizadores) e Marko Gravehill (guitarra), falaram com a gente a respeito dos mais de 30 anos do lançamento de The Vampire’s Kiss (1993). Eles comentaram sobre a repercussão do público europeu e brasileiro, além de contarem histórias de bastidores sobre a gravação e o lançamento do material. Mais uma vez, meus agradecimentos à banda pela gentileza! Conhecia a banda? Conheceu agora? Conte para a gente o que achou da entrevista e qual é o próximo artista que você quer ver por aqui! Rebobinando A banda finlandesa foi originalmente criada pelo vocalista e compositor Jyrki Witch e pela cantora, compositora e tecladista Anne Nurmi, que logo após o lançamento do disco deixou a banda para se juntar ao Lacrimosa. As letras do Two Witches abordam temas como vampirismo, terror psicológico, medo e sexualidade. Com um som mais cru, rasgado e menos comercial, o Two Witches traz uma tonalidade marcante e única para a música gótica, e esse registro de 93 com certeza merece um local de destaque, alternando entre os vocais de Jyrki e passagens vocais de Anne e Nauku (segunda backing vocal que viria a deixar a banda alguns anos depois) com elementos de darkwave e punk. The Vampire’s Kiss – O lançamento Jyrki fez alguns comentários sobre o lançamento do disco antes da entrevista em si; segue na íntegra: Como o som da banda evoluiu desde os anos 90? Suas influências mudaram? Jyrki: É claro que cada músico trouxe sua própria influência para o som e para as composições da banda. Sou o único que restou da formação dos anos 90. A tecnologia de estúdio também mudou muito, e isso afeta o som. Antigamente, tínhamos que preparar tudo completamente com antecedência e depois íamos ao estúdio apenas para gravar as músicas rapidamente. Se algo desse errado na execução ou ocorresse algum imprevisto, tínhamos que deixar todos os erros na gravação, pois não tínhamos dinheiro para pagar por novos dias de estúdio. Hoje em dia, podemos gravar tudo em home studios. Nosso guitarrista, Marko Hautamäki, entrou na banda em 2001 e, atualmente, ele também compõe a maioria das nossas músicas. Miss Blueberry entrou em 2017 e toca teclados. Também temos três músicos de apoio para os shows: Alarik Valamo (bateria), Antti Hermanni (baixo) e Haydee Sparks (guitarra). Ao longo dos anos, minhas influências certamente mudaram de várias formas, mas, em algum momento, elas sempre retornam ao ponto de partida. Ainda gosto das mesmas bandas, livros, filmes e outras coisas que gostava lá nos anos 80. Marko Hautamäki: Com a evolução da formação ao longo dos anos, todos os novos membros obviamente trouxeram algumas de suas próprias influências. Além disso, toda a cena musical passou por sua própria evolução, e isso também nos afeta como ouvintes e, consequentemente, como compositores. Não acho que existam influências “originais” cujo peso em nossa música tenha diminuído com o passar dos anos, mas agora há muito mais influências misturadas. O Two Witches sempre foi uma banda mais experimental do que as pessoas costumam pensar. No início, havia experimentos com poesia e coisas do gênero. Hoje, experimentamos mais dentro do amplo estilo “gótico” e dos vários elementos musicais inseridos no contexto maior da cena. Dito isso, nosso álbum GoodEvil também apresentou alguns daqueles experimentos poéticos dos primeiros dias, então também não abandonamos nossas raízes nesse sentido. Miss Blueberry: Eu amo dançar e tento injetar “dançabilidade” em nossas músicas atuais. Gostaria de trazer para as canções mais ritmos que funcionem na pista de dança. Como você vê a recepção do Two Witches no Brasil em comparação com a Europa? Marko Hautamäki: Além de o público se comportar de forma muito diferente na América do Sul em comparação com a Europa, estamos vendo uma grande mudança na cena como um todo. A cena gótica europeia tem muita história, mas isso também tende a tornar as coisas um pouco estagnadas. As pessoas tendem a se concentrar nas bandas e artistas pelos quais se apaixonaram lá nos anos 80 ou 90, e não parecem se importar muito com o que aconteceu desde então. Por outro lado, as bandas de goth/darkwave dos anos 2000 em diante parecem ser apoiadas, em sua maioria, por um público diferente. Elas ainda estão na mesma cena, mas as pessoas são, em grande parte, outras. Isso significa que existe basicamente uma divisão entre a “velha guarda” (old school) e a “nova escola” (new school) dentro da cena. No Brasil e na América do Sul em geral (junto com alguns outros lugares), a cena é mais jovem e, embora as bandas influentes sejam as mesmas, esse tipo de divisão não parece tão drástica, o que torna a cena muito mais forte no geral. Para o Two Witches, isso se reflete no imenso apoio e entusiasmo que recebemos do público brasileiro. Esperamos estar de volta aí o mais rápido possível! Jyrki Witch: Eu não sei por que, mas o Two Witches tem sido mais popular nos países da América Latina do que na Europa desde os anos 90. Especialmente no Brasil, temos sido recebidos com muito carinho. Mas, é claro, nós amamos os países latino-americanos e o nosso público de volta. Se fosse financeiramente possível, gostaríamos de tocar no Brasil todos os anos. Miss Blueberry: Há públicos muito mais incríveis no Brasil do que na Europa. Embora tenhamos tido uma recepção calorosa na Europa, o acolhimento dos fãs brasileiros tem sido algo realmente especial. Como foi a saída da Anne Nurmi para o Lacrimosa? Vocês mantiveram contato ao longo dos anos? Jyrki: A Anne queria ir e ver como era o mundo fora do nosso lar. Ela se juntou ao Lacrimosa e eu dei continuidade ao Two Witches. Nós dois éramos muito jovens na época e o futuro parecia estar totalmente aberto. Agora, ambos construímos nossas próprias carreiras e talvez alguns dos fãs até gostem das duas bandas. Depois que a Anne saiu, decidi continuar com o Two Witches; a Nauku aprendeu a tocar teclados
2ª edição – Cápsula: discos perdidos no tempo

english version here Nesta 2ª edição – Cápsula: discos perdidos no tempo, temos uma novidade! Agora lançamos um podcast para experimentar outros formatos, ou seja, você pode conferir toda essa matéria por áudio, basta dar o play abaixo, aproveita pra seguir a gente e avaliar esse episódio: Olá, como vocês estão? Já faz um bom tempo desde a nossa última edição, e acredito que alguns discos da lista não estão mais tão perdidos, com seus artistas de volta com tudo. Vamos recapitular e ver o que aconteceu desde então. Quatro meses depois do nosso artigo, Fausto Fawcett nos presenteou com o disco “Favelost”, trilha sonora de seu livro de mesmo nome. Antes apenas disponível em um site promocional, finalmente temos esse trabalho incrível disponível também nas plataformas digitais. Além disso, Fausto tem feito diversas aparições em casas de show de São Paulo, com vários shows e participações especiais e autógrafos. Sempre bom ficar de olho nas redes para ver quando vai ser o próximo evento. Já o MopTop anunciou seu retorno com um show na casa Augusta Hi-Fi, em 12 de julho (2025), com um disco fresquinho, que inicialmente se chamaria “Ghosts”, mas que por fim se chamou “Long Day”. Espero que se torne uma tradição ter notícias de artistas incríveis após uma edição de cápsula. Para acompanhar essa edição, teremos, em um segundo momento, entrevistas exclusivas com dois artistas da lista: a Ana Carolina Fontoura (shadoW) e a banda Two Witches. Quero agradecer imensamente à Ana por ter sido tão receptiva com a gente e disposta a compartilhar um pouco do seu trabalho e das ideias por trás do projeto. Agradecer também ao Jyrki Witch do Two Witches, que tão prontamente topou participar junto com a Miss Blueberry e o Marko Hautamäki, contando histórias incríveis dos bastidores do lançamento do disco de que falaremos nesta edição, com um incrível número de detalhes, além de responder às nossas perguntas. Gostou dessa edição? Não esqueça de prestigiar os artistas seguindo-os nas redes sociais, indo aos shows e comprando e ouvindo as músicas. David Sylvian – Secrets of the Beehive (1987) David Sylvian é um músico e compositor inglês que ficou bem conhecido nos anos 70 por fazer parte do movimento new romantics com a banda de new wave Japan. Em 1987, David Sylvian lançou seu terceiro álbum solo, “Secrets of the Beehive”, cheio de poesia e existencialismo. A voz de Sylvian penumbra entre um instrumental cheio de orquestras, trompetes, fortes percussões, sintetizadores, do rock ao jazz, que não deixam o disco anacrônico, muito menos datado, mas que ainda refletem um pouco do som de seu tempo. Envelhecendo como um bom vinho depois de quase 40 anos de seu lançamento, cheio de nuances e segredos que se desfazem a cada ouvida, até hoje, depois de tanto tempo ouvindo, sempre me encontro descobrindo uma faixa nova e a repetindo vez após outra. (Atualmente estou preso em Let The Happiness In). Um disco melancólico, sofisticado e que exige um pouco do ouvinte, mas entrega muito, que continua a ser um clássico e me assusta o pouco que é citado. Two Witches – The Vampire’s Kiss (1993) Lembro de estar voltando da escola ainda no ensino fundamental, há muitos anos, quando eu ainda tinha cabelo e emulava o Robert Smith com meu cabelo bagunçado e avoado sobre o rosto, enquanto tocava “Disintegration” no fone de ouvido e eu achava que aquilo era o máximo do “rock gótico”. Até hoje ainda amo The Cure e com certeza a banda tem seu valor dentro da cena, mas após andar mais algumas quadras, uma guria do ensino médio, Bruna (se você estiver lendo isso, sou muito grato pelas bandas que me apresentou naquela época), me para na rua e começa a conversar comigo como se me conhecesse há anos. Fizemos amizade logo de cara, e alguns dias depois ela me mandaria um zip ainda no falecido MSN de um álbum incrível de uma banda até então desconhecida pra mim: Two Witches e seu “The Vampire’s Kiss”. A banda finlandesa foi originalmente criada pelo vocalista e compositor Jyrki Witch e pela cantora, compositora e tecladista Anne Nurmi, que logo após o lançamento do disco deixou a banda para se juntar ao Lacrimosa. As letras do Two Witches abordam temas como vampirismo, terror psicológico, medo e sexualidade. Com um som mais cru, rasgado e menos comercial que bandas como Sisters of Mercy (que eu amo), mas um pouco mais palatável que Poésie Noire, por exemplo, o Two Witches traz uma tonalidade marcante e única para o gênero, e esse registro de 93 com certeza merece um local de destaque, alternando entre os vocais de Jyrki e passagens vocais de Anne e Nauku (segunda backing vocal que viria a deixar a banda alguns anos depois) com elementos de darkwave e punk. No underground, a banda continua na ativa até hoje, lançando álbuns e focando mais em apresentações ao vivo. Inclusive gravaram em São Paulo um disco ao vivo do show que fizeram por aqui em 2019, lançado em 2020 pela gravadora brasileira Deepland Records, chamado Deepland (Live In São Paulo – Brazil). A banda foi super receptiva e falou com a gente sobre o disco e a repercussão dele ao longo dos anos, além de contar algumas histórias interessantes dos bastidores. Em breve iremos publicar, fiquem de olho. Shadow – It only hurts when we stop laughing (2012) Shadow é uma one woman band, um projeto solo de uma única pessoa responsável por tocar todos os instrumentos que você escuta na gravação. Idealizado por Ana Carolina Fontoura, a luso-brasileira conhecida como Shadow, lançou em 1º de janeiro de 2012 seu trabalho que considero o mais visceral e ressonante até então. Ao longo de seis faixas cruas e hipnóticas, somos levados ao mais profundo íntimo de uma cantora misteriosa, reservada e ainda assim cheia de sentimentos intensos e pensamentos a compartilhar com o mundo. O EP, “It Only Hurts When We Stop Laughing“, conta com letras em português e outras em inglês,
Gustaf está mais divertido e dançante em seu segundo disco

A banda americana de art-rock e pós punk Gustaf, lançou seu segundo álbum de estúdio no último dia 5 de abril. O grupo apresenta um som divertido e com foco no emocional de seu personagem apresentado/narrado no álbum, soando quase como uma ópera rock. Influências pouco convencionais para uma banda pós punk Formado por Lydia Gammill (vocal), Tina Hill (baixo), Melissa Lucciola (bateria), Vram Kherlopian (guitarra) and Tarra Thiessen (vocal e percussão), surgiram em 2018 no Brooklyn. Apresentam um som bem experimental, fugindo um pouco do que se costuma ouvir de bandas da cena pós punk, muito se dando as influências pouco convencionais para o gênero presentes no som da banda, como a principal sendo Laurie Anderson (artista experimental dos anos 80), que sempre trouxe em suas músicas histórias, monólogos, sons aleatórios, o silêncio, vocal falado (spoken word) entre outros elementos. A parceria com Beck Um dos singles do álbum novo, “Close”, rendeu um vídeo clipe dirigido pelo próprio Beck, que inclusive já declarou ser um dos grandes fãs da banda em diversas entrevistas. Ambos já haviam feito uma parceria anteriormente quando Beck fez um remix de uma das músicas de Gustaf, “Design” (particularmente não gosto de remixes, mas fica de curiosidade). Package, Pt. 2 Package, Pt. 2 é um álbum agressivo, divertido e dançante ao mesmo tempo. Todas as músicas têm um estilo próprio da banda, onde faixa após faixa realmente tem a cara do grupo, mas ao mesmo tempo não parecem um amontoado de faixas similares, cada uma se apresentando com sua característica própria. Por ser um disco bem curto, é fácil de por no repeat por duas três vezes sem notar. O álbum é uma continuação direta do primeiro disco de 2021 Audio Drag for Ego Slobs, e título do segundo disco faz referência à canção package do antecessor, já dizendo que é uma continuação do mesmo. Acompanhamos o narrador descobrindo formas de lidar com seus sentimentos, sonhos e ações perante ao mundo e como a forma de lidar com tudo isso impacta suas relações. O disco foi produzido por Erin Tonkon, que trabalhou com David Bowie em Blackstar, o que talvez explique também um pouco algumas passagens soturnas e mais épicas encontradas (como Here Hair e End of The Year) no meio das faixas dançantes do lançamento, mas que ajudam a refletir as vivências do narrador e sua evolução ao longo da jornada. Gustaf nas redes sociais: • Instagram • Twitter (X) • Facebook • Bandcamp • Youtube
1ª edição – Cápsula: discos perdidos no tempo

Olá! Começamos um novo ano, 2024 está finalmente aqui! Dito isso, trazemos algumas novidades, a primeira delas é esta nova coluna “Cápsula”. Aqui temos como objetivo reviver alguns discos que gostamos, mereciam mais destaque ou que mais pessoas os conhecesse. A ideia é trazermos sempre que possível discos que nos marcaram de alguma forma, que tenham ao menos uma década. De artistas ou bandas que encerraram suas atividades, estão em hiato ou em status diferente de ativo. Aquelas que não vemos aparecer tanto em listas, retrospectivas de décadas passadas e ou outros artigos musicais. Mas, que com toda certeza vale a pena você ouvir ao menos uma vez. Lembrando que, os discos citados não seguem ordem específica. Fausto Fawcett e Os Robôs Efêmeros (1987) Em 1987 o escritor e jornalista (entre mil e outras coisas mais) carioca Fausto Fawcett lançava o álbum “Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros”. O primeiro de uma trilogia (não oficial até onde eu saiba) sobre uma Copacabana futurista e decadente (não tão diferente do que ela e o resto do mundo se tornou). Com um som diferente de tudo que viria a ser lançado depois pode-se dizer que com esse álbum, Fausto criou e matou um gênero único. De uma forma que nem os sons dos dois álbuns posteriores conseguiram preservar o que é alcançado aqui. Com uma mistura de pós-punk, funk, new wave e até samba, criou uma ópera cinemática, onde cada música é uma cena descrita e cantada, com início, meio e fim (não nessa ordem). Apesar de não lançar mais de estúdio desde o Básico Instinto de 93, Fausto e sua antiga banda (Robôs Efêmeros) continua fazendo shows. Quando não canta músicas inéditas baseadas em seus livros (o próprio Básico instinto, Copacabana Lua Cheia ou Favelost). Moptop – Como se comportar (2008) Em 2008 saía o último disco de estúdio da banda carioca Moptop. Ele não chega a ser datado, mas que carrega muito do som da época, principalmente de The Strokes, que inclusive era feita a comparação. Lembro de chegar a ouvir na época o pessoal chamando eles de Strokes Brasileiro. Mas, para ser justo, mesmo com toda influência, não existe cópia, e o disco ainda carrega sua identidade própria. As letras e a forma com que o vocalista Gabriel Marques cantava, tem um compasso muito próprio. Chegava na borda do que o mainstream aceitava (estavam concorrendo ao prêmio de banda revelação no MTV VMB de 2007, perdendo para o Fresno – apesar de que, ambas não surgiram em 2007). Encerraram as atividades em 2010 e com certeza deveria ter um lugar de destaque ao lado de Los Hermanos, mas que muitas vezes passa batido. Clube da Miragem – Barbarella, sangue e beijos (2018) “Um híbrido entre o Samba e o Gótico com o futuro em mente. Alguma emoção sendo negociada enfim”. Esse é um trecho retirado do perfil da banda no Spotify, que descreve um pouco da proposta do Clube da Miragem. A banda carioca se descreve como a primeira banda de Samba Gótico do mundo. Apesar das plataformas digitais datarem o EP Barbarela, sangue e beijos (único conjunto de músicas gravadas pela banda) como de 2018, ele é bem mais antigo que isso. Lembro de ouvir esse disco em 2013, 2014 já, e em uma rápida pesquisa é possível encontrar registros dele na internet posteriores a 2012 também. A música popular brasileira e o samba propriamente dito (apenas uma impressão, não sou grande conhecedor), em sua origem e nos tempos onde nasceram os clássicos, carregavam uma certa melancolia em algumas músicas, que foi se abafando de uma forma a se tornar parte do que deve ou não se falar (pode até se dizer da contemporaneidade – capitalismo) da “gratidão” pelo que se tem, pela negação da tristeza, a positividade tóxica, pela própria despolitização das coisas e da música talvez. Com influências que vão de bandas pós-punk como The cure, Killing Joke, Cocteau Twins, Vultos, Kafka até os sambistas Candeia, Cartola e Nelson Cavaquinho, a banda resgata essas origens aflitivas e entrega antítese incrível que fazem desse disco um achado, e a música que nomeia o EP um clássico. Não encontrei nenhuma noticia recente de atividade da banda, seria incrível ouvir algo novo deles hoje em dia, chegaram a lançar um single (2021), mas que parecia mais como uma intro, um prenuncio, de algo que viria e nunca veio. Fico na esperança mórbida por um novo disco deles. Yonlu – A Society In Which No Tear Is Shed Is Inconceivably Mediocre (2009) Em 2023 eu tive a oportunidade de assistir a peça “Ana Marginal” , que traçava as personas deixadas pela poeta carioca Ana Cristina Cesar depois de sua morte. Em determinado momento da apresentação, o texto da Michele Ferreira questionava de forma metalinguística sobre para qual caminho a própria peça iria em determinado ato e fala algo como “então é isso? Vou limitar e resumir todo o trabalho feito em vida por Ana, Cristina, e Cesar (as personas mas o nome e sobrenomes) em sua morte?” e acho que o trabalho de Yonlu também leva essa questão. Sua vida e seus sentimentos são retratados em seu curto trabalho por ele mesmo, em suas letras e melodias, e acho que por si só basta talvez, ao menos para o que essa coluna se propõe. O segundo álbum póstumo de Yonlu, lançado pela gravadora de David Byrne (vocalista do Talking Heads), é o melhor disco para se conhecer o trabalho do musico gaúcho. Com letras e melodias cheias de influência do folk, bossa nova e lo-fi, ele recebeu uma curadoria muito boa com a inclusão de algumas gravações inéditas que não tem no primeiro (Yonlu de 2008). Algumas canções dele carregam uma certa ironia, como alguns ritmos dançantes para uma letra muito melancólica, por isso me lembra uma coisa entre os Moldy Peaches e o som denso do Nick Drake. Que ao menos pra mim, mesmo sendo um som lindo, é difícil ouvir, emana tamanha sinceridade e sentimento que demanda
SLOWDIVE: TUDO ESTÁ APAGADO

Artista/Banda: SlowdiveÁlbum: Everything is aliveGênero: Dream pop, Shoegaze, Indie, Post-Punk, New-waveAno: 2023Destaques: Alife / Kisses Slowdive acabou de lançar o quinto álbum de estúdio, Everything is alive, soando bem diferente do seu antecessor homônimo da banda, Slowdive de 2017. Vale lembrar que o destacamos em uma de nossas matérias sobre os melhores álbuns do ano listados pelo AOTY (Album of the year). Sendo listado em primeiro lugar na época por diversas listas, foi realmente uma agradável surpresa. Ainda mais pensar que eles não lançavam nada desde o Pygmalion de 1995. O nome do álbum em conjunto com a capa (que lembra muito uma espécie de mandala em forma de labirinto) remete a uma proposta mais esotérica por parte da banda. Nos dá a entender que talvez o futuro aponte para cada vez mais experimentações em sua sonoridade. Shanty, primeira faixa do disco é bem mais experimental que de costume, ainda que acompanhada pelo dream pop, principalmente nos vocais. Soa mais eletrônica, aquele eletrônico que Moby ou Chemical Brothers usava, mas claro que de forma mais sútil. A letra continua com a temática de relacionamentos, não tem um refrão muito marcante e acaba ficando um pouco cansativa ao longo dos cinco minutos. A segunda faixa, Prayer remembered, é toda instrumental e acaba soando como uma longa introdução para Alife. Rachel Goswell, vocalista e guitarrista, disse em uma entrevista para Billboard, como a morte da mãe dela e do pai do baterista Simon influenciaram as gravações desse álbum. E acho que essa música ilustra bem isso. Tanto a letra como a música soam como uma despedida para pessoas que nos deixaram, soa nostálgica mas esperançosa. Ela segue um pouco o padrão de alguns hits do álbum anterior, primeiros versos por Rachel, complemento do vocalista Neil Halstead, riffs marcantes por alguns segundos antecedendo o refrão base da música, e continua esse ciclo até o fim da canção. Apesar de seguir a receita, foi a minha favorita até aqui. Andalucias Plays, quarta faixa do disco, é um solo do vocalista, mais leve e sem muitas distorções no vocal como as anteriores. Soa como uma história sendo contada, com um refrão não muito marcante. Sem muitas mudanças ao longo da música, apenas a voz do vocalista recitando um conto em seus quase 7 minutos de música. Kisses, primeiro single do novo álbum, provavelmente a mais comercial até aqui, com um clipe muito bom feito para divulgação que retrata bem a letra. É bem gostosinha de ouvir, lembra os hits antigos da banda. Sexta faixa do disco, Skin in the game, outro single do álbum, com um refrão é o nome da música, mas que soa muito estranho, não faz muito jus à banda, acho que a que menos gostei até esse ponto do disco. Penúltima faixa do disco, Chained to a cloud, começa com uma introdução feita com um tecladinho mais eletrônico seguido de um beat da bateria mais robótico também. De primeira, você não diria que é uma canção do Slowdive, mais uma das experimentações que esse álbum novo tenta entregar. A música segue com o Rachel e sua voz recheada de ecos, que se repetem a cada frase dita, mas que novamente, soa estranho e sem naturalidade. Gostaria que esses efeitos tivessem passado a sensação de ouvir ela cantando como se tivesse embaixo d’água, ou no espaço (a sensação que tenho muitas vezes ouvindo uma música de shoegaze ou dream pop), só que aqui me tirou da imersão do álbum, se eu fechar o olho consigo imaginar eles trabalhando na pós-produção, pensando qual efeito incluir e em qual hora encaixar e etc. A última faixa do disco, The slab, acaba por soar como um amontoado de sons, chega a ser difícil sentir, entender ou compreender ela. E com seus cinco minutos, acaba sendo um bom resumo do que o álbum entrega. É difícil pra uma banda como o Slowdive tentar inovar, pois quando inova (como acrescentando eletrônico por exemplo) soa estranho; quando retoma seus trabalhos se autorreferenciando, acaba virando mais do mesmo. Não que seja ruim se repetir, pois a discografia deles é linda, mas é difícil lançar um álbum que seja impactante depois de tantos anos de existência do shoegaze e dream pop. As vezes dá a impressão de que tudo que tinha pra ser feito no gênero já foi e agora é só reciclagem. No geral, Everything is alive é um álbum apagado, que mesmo sendo um dos discos mais curtos da banda (41 min) soa como o mais demorado, parecendo um reciclado dos trabalhos mais antigos da banda, mas com adição de elementos novos, que em vez de entregar algo inédito e autêntico, acabou entregando algo genérico, sem muita coisa marcante para oferecer e soando apenas como mais um álbum de dream pop no meio de tantos. Agora, um bom álbum de dream pop no meio de tantos? talvez com os anos ele envelheça bem, mas hoje eu considero um álbum ruim pra médio. Da discografia da banda é o mais esquecível. Mas o que você achou do quinto álbum da banda? Concorda ou discorda do que eu disse? Me fala aí nos comentários, qual você mais gostou do álbum? Lembrando que esse ano eles tocam aqui no Brasil no Primavera Sound. Siga o Slowdive nas redes sociais: SpotifyInstagramFacebookSite
Sara é nome próprio: Sara não tem nome e o Agora

Sara Não Tem Nome acaba de lançar um álbum chamado A Situação, um álbum político, cheio de reflexões e questionamentos sobre o modo de vida atual
Tears for Fears e as feridas do passado

Artista/Banda: Tears For FearsÁlbum: The HurtingGênero: Synth-pop / New WaveAno: 1983Destaques: The Hurting / Mad World / Pale Shelter por: Gabriel Marinho Tears for Fears é uma banda britânica encabeçada por Roland Orzabal e Curt Smith, que surge nos anos 80 em meio ao boom do “New Romantic” que tomou muito do que se fazia de synth-pop na época, trazendo algo mais introspectivo e carregado para a cena. O álbum de estreia da banda Tears for Fears, “The Hurting” de 1983, sonoramente falando pode soar meio datado, entretanto, ainda hoje continua relevante e traz consigo muitos significados. Com a maioria das letras sendo escritas por Orzabal, é possível dizer que acompanhamos vários períodos da vida (principalmente a infância) do protagonista dessa história (talvez o próprio Orzabal), com referências aos traumas que passou e com certo embasamento em cima da linha terapêutica do “Grito Primal”, criada pelo psicanalista Arthur Janov. A parte técnica do processo terapêutico envolvendo o “Grito Primal” consiste em trazer à tona seus traumas “primais” que desencadearam os seus atuais problemas, que desencadearam no ser em que a pessoa se tornou. Caso algum de nossos leitores seja da área e tenha algo a dizer sobre essa linha psicanalítica, adoraríamos ouvir na sessão de comentários. De mesmo nome do álbum – The Hurting – inicia o disco com uma batida que ecoa como uma estrada, a linha da guitarra entra dando o ritmo da canção, ela soa como uma busca, realmente parece que estamos ouvindo uma sessão de terapia gravada, ouvimos os cortes e as lembranças, algumas cenas desconexas, como se tudo tivesse vindo à tona de uma vez só e sem aviso… várias cenas são descritas ao longo da batida e em certos momentos é quase como se o psicólogo “entrasse”, guiando a viagem. “Get in line with the things you knowFeel the PainFeel the sorrowTouch the hurt and don’t let goGet in line with the things you knowLearn to cryLike a babyThen the hurting won’t come back” A segunda faixa – Mad World – é uma das minhas favoritas do Tears for Fears. É triste e com esse tom meio irônico, como se esse mundo triste em que o protagonista vive fizesse dele mesmo um louco também, afinal se ele não se encaixa acaba que também deve ser um dos loucos para quem está de fora o vendo e da mesma forma que ele soa como um espectador do mundo ao redor, nós ouvintes também viramos um espectador também daquela história. A música toda é bem melancólica, o protagonista é um claro “outsider” buscando entender o meio ao seu redor, provavelmente um adolescente ou uma criança, dado os cenários descritos. A música voltou a ser muito falada ao ser inserida como trilha sonora do filme Donnie Darko de 2001, em um cover no piano feito pelo cantor Gary Jules. Eu particularmente prefiro a versão original do Tears for Fears, essa atmosfera dançante e melancólica que eles conseguem passar, como se a tristeza e a loucura andassem juntas, é muito autêntica. “Went to school and I was very nervousNo one knew me, no one knew meHello, teacher, tell me what’s my lessonLook right through me, look right through me” A seguinte – Pale Shelter – fala sobre uma relação fria, onde um dos lados está claramente necessitado de uma certa atenção que nunca chega. Pode ser um filho por um pai, amigos, um casal, isso fica aberto para interpretação, mas o mais provável, tendo em conta a temática de volta a infância do álbum, que seja a falta de atenção dos pais, palpite meu. A música tem um riff bem marcante, como as outras duas faixas, também dando a impressão de estarmos indo de uma cena a outra da memória do protagonista, e o vídeo clipe ilustra bem essa sensação, meio onírico, com Orzabal e Smith andando por vários cenários como observadores. “When you don’t give me loveYou give me pale shelterYou don’t give me loveYou give me cold handsAnd I cannot operate on this failureWhen all I want to be isCompletely in command” Algumas músicas desse disco podem ser consideradas de difícil audição, tanto pelo peso que pode trazer para o ouvinte (por identificação com as letras), como sonoramente falando; a quarta faixa, “Ideas as Opiates”, foi feita, como as outras faixas, baseada no “Grito Primal” e no trabalho do psicanalista Arthur Janov, essa em particular com base no livro “Prisoners of Pain” de 1980. Aqui tem papel de “respiro” dos 3 hit’s anteriores e para o que enfrentaremos em “Memories Fade”, próxima faixa do disco. Essa quinta faixa do disco é a menos eletrônica de todo o álbum, é possível sentir todos os instrumentos de uma forma um pouco mais orgânica, com os sintetizadores aparecendo ocasionalmente apenas enquanto acompanham a introdução do Orzabal em um vocal quase “voice-over”, e com a inclusão de um saxofone que finaliza perfeitamente a canção. Ao contrário das outras, que têm uma jornada introspectiva quase inconsciente e guiada, nessa percebemos um tom mais “consciente” do protagonista, meio que se dando conta do que ocorreu e se perguntando o que fazer para seguir em frente. “I cannot growI cannot moveI cannot feel my ageThe vice, like grip of tension holds me fastEngulfed by youWhat can I do?When History’s my cageLook foward to a future in the pastMemories fade, but the scars still linger” A sexta faixa do disco, “Suffer The Children”, relata o que aparentemente parece ser a separação dos pais e como a criança lida com isso. A música tem uma atmosfera pesada, a estrutura toda dela não chega a ter um refrão, o que a torna mais difícil, exigindo mais do ouvinte. O ponto alto é a inclusão de um certo “coro” de criança (na verdade, feito por Caroline Orzabal, esposa de Roland na época) quase antes de finalizar a música, com Smith cantando “Suffer the Children…Suffer the Children…”. “And convince himJust talk to himCos he knows in his heart you won’t be home soonHe’s an only child in an only roomAnd he’s dependant on you” A
Nycolle Fernandes, uma viagem ao limbo

Artista/Banda: Nycolle FernandesÁlbum: When the Sun ComesGênero: Folk / Alternativo / Ambient / InstrumentalAno: 2016Destaques: I’m so confused / In Limbo por: Gabriel Marinho Nycolle Fernandes é uma musicista de São Paulo, que teve seu primeiro lançamento em 2016 com o EP “When the Sun Comes”, mas antes disso já fazia covers de bandas grunge no soundcloud, como Alice in chains e Silverchair, mostrando um pouco de suas influências e alcançando mais de 7 mil audições apenas nessa plataforma, ganhando seu espaço na cena undeground lo-fi; é dela e de seu primeiro EP que falarei um pouco hoje. Conheci o trabalho da Nycolle em um grupo de shoegaze no facebook, em meados de 2015, naquela época o primeiro som que ouvi foi “I’m so confused”, música que viria a entrar em seu primeiro EP e que seria a primeira faixa do disco. A música começa com um dedilhado que ecoa forte a cada nota, é um som ambiente, soturno, leve e ainda assim um pouco angustiante, que por muito soa quase como um shoegaze devido a distorção vocal que acompanha os acordes, a única com vocal presente no disco. É um som sincero e palpável, sendo possível sentir o sentimento que ela quer passar, aqui o minimalismo torna a música muito grande, os versos que ecoam ao longo da faixa ficam por um bom tempo na cabeça ao fim da audição. A segunda faixa do disco, “In limbo”, soa como uma viagem dentro de um túnel, é um som místico, cada slide que Nycolle faz é acompanhado de sensações, de melancolia. Uma das melhores do ep, aqui ela marca fortemente sua personalidade sonora, que na questão de influência, me lembra alguns sons do Elliott Smith, ou ainda os sons que o John Frusciante fez ao sair do Red Hot Chili Peppers. A terceira faixa é cheia de suspense, soa como uma trilha sonora de um filme, Nycolle nos conta uma história através das notas de sua guitarra, como o nome sugere: “Sunset’s Shadows on the city”. Traz uma sensação de estreitamento nas sombras, minha visão é de que elas se escondem nas sombras, tem dias que não conseguimos enxergar uma saída dos problemas da vida e eles nos encobrem por muito tempo, a atmosfera da música cria essa ambientação propicia perfeita e uma cena se cria facilmente na mente, bastando fechar os olhos e se guiar pelo som. Sei que a Nycolle não escuta Katatonia, mas me lembrou um pouco a fase deles do Brave Murder Day, que é um doom metal bem soturno. “Moon and Mountains”, última e quarta faixa do disco, é um lindo folk, soa como uma caminhada, uma trilha na floresta, que começa a passos largos e logo se aperta correndo, uma perseguição, uma busca dentro de si. Mais uma vez de forma minimalista e profunda, a guitarra de Nycolle Fernandes fala e ressoa; em certos momentos é possível ouvir como se fossem gotas e um ponteiro ao fundo, acompanhando cada toque de seus dedos sobre a corda, é um mistério que perpetua a música toda, finalizando de forma perfeita o disco. “When the Sun Comes” é um disco intimista e muito pessoal, que da o ponta pé inicial na discografia de Nycolle Fernandes. Aqui somos levados a uma viagem em nosso subconsciente de forma soturna, misteriosa e muitas vezes mística; a melancolia que com certeza iremos encontrar nessa audição por vezes desperta fortes sensações, o que exige de quem estar ouvindo esforço para olhar para si enquanto é guiado por cada acorde, o que torna o ambiente pesado e bonito ao mesmo tempo, parafraseando Melancolia (filme de Lars Von Trier): “Melancolia irá simplesmente passar sobre nós e será a mais linda das visões” Siga a Nycolle Fernandes nas redes sociais: SpotifyInstagramFacebookBandcamp
André Prando, sutilmente marcado no tempo

Artista/Banda: André PrandoÁlbum: Estranho SutilGênero: Rock AlternativoAno: 2015Média: 10/10Destaques: Inverso ano luz / Linha torta / Vestido cor maçã por: Gabriel Marinho André Prando é um dos mais autênticos e inovadores artistas brasileiros de nossa década, e como a maior parte dos músicos do nosso país ainda não teve o total reconhecimento merecido. Ainda que sob o underground, é fácil notar a gama de fãs fiéis que obteve ao longo de sua “recente” carreira, já em 2015, com seu primeiro álbum, Estranho Sútil (lançado um ano depois do ep “vão”), já era possível perceber que ele era um dos grandes. Tive a chance de ver um show do André Prando em São Paulo em 2016 e a sensação e energia que ele emanava música após música é quase indescritível, quanta alma, quanta verdade… Nesse show ele cantou em sua maioria o repertório do disco de 2015, é dele que falarei um pouco hoje. Como grande parte do álbum, a primeira faixa – Inverso Ano Luz – é toda descritiva e mística, estabelece o sentimento e situação que o eu lírico se encontra, mas deixa alguns pontos para interpretação de quem escuta, é poético, melancólico e ainda assim meio esperançoso. “Hoje o dia não amanheceu porque eu não dormi,Eu não adormeço mais…Mas tá tudo bem.Boa noite, bem!Boa noite, bem!” É difícil descrever o trabalho sonoro do álbum, da aquela sensação de que você já ouviu esse tipo de música (algumas influências que conheço por exemplo, ficam claras no trabalho do André Prando), mas não sabe exatamente o que. A música segue com uma bateria marcada que acompanha um riff bem marcante, daqueles que se você ouvisse sem a letra, saberia muito bem qual a música é, aquelas de começo de show; no primeiro acorde você já abre o sorriso e vem a letra em mente?!. Os minutos finais da música ganham um pouco de peso, um grito em suplica do André guiam para o término; com um outro som vocalizado feito em acompanhamento (tchuru tchuru tchuru), que me lembra o som da abertura do desenho “Doug” rs. “Ah, eu vi de láLá do altoPó, poeira eu sou” A segunda faixa, “Amiga Vagabunda”, é uma das outras camadas que compõe o disco, essa é a mais animada de longe, quantas vezes já me peguei cantarolando essa música na rua, chega soa nostálgica, mas obviamente já é algo mais da minha experiência. A letra é quase metalinguística, André Prando vai descrevendo a forma com que os outros (a sociedade) o descreve e descrevem as pessoas (os rótulos, as percepções por senso comum, os preconceitos), em seguida, quase sem perceber, ele mesmo descreve a melhor amiga: “Me ensinaram que eu sou um vagabundoPorque meu pé tem marca de chineloE eu sento no chãoE porque eu fumoE tenho amigos que esqueço o nome” – “A minha melhor amiga é vagabundaPorque beija moças e rapazesTrabalha metade do diaBriga e faz sexo como as pazes” Sonoramente falando essa música mostra uma influencia forte de Raul seixas, principalmente nos minutos finais na forma de cantar e em alguns momentos até o próprio timbre do André, mas claro, sempre de uma forma que mantem a originalidade e a personalidade do mesmo. O riff que acompanha a música é bem dançante junto com a bateria, é muito artístico (seja lá o que isso queira dizer), é quase circense. E ao final, como todo o trabalho envolvendo o André, a letra finaliza de forma a tecer uma critica perfeita sob o que consideramos um estio de vida “correto” a ser levado: “Se eu não passo oito horas sentado numa cadeiraAtrás de um balcão fazendo todo santo dia a mesma coisaSem exercer meu direito como uma criatura criadoraeu sou vagabundo” “Linha Torta”, a terceira faixa do disco, é de longe a minha favorita. Ela começa e termina de forma sexy e triste, é um suspiro, um gemido em uma sexta-feira chuvosa. Aqui podemos perceber a versatilidade vocal do André Prando, a forma com que ele canta de forma firme e forte em cada passagem, e no refrão muda para um vocal fino e suave, é incrível e carrega um sentimento fortíssimo; e as nuances de cada riff ao longo da música ajudam a atenuar isso, de forma leve, soturna e muito, muito profunda: “Você invadiu minha residência sem limpar o péDeixou meu quarto sujo, bagunçado e atéMe fez tirar a roupa do lugar” (1° estrofe) – “Os ponteiros passaram e você não passouE a chuva cai lá fora, a chuva cai lá fora…” (1° verso) A estrutura sonora e letra da quarta faixa, “Circo Dos Palhaços Dixavadamente Imorais”, é bem inteligente e critica. Mais uma daquelas animadas do disco, e com um tom bem sério; na época em que estamos (e já faz um bom tempo que estamos nessa época), de que basta pensamento positivo que os problemas somem, André Prando usa essa temática para mostrar as dificuldades do dia a dia do proletário urbano e que ainda assim deve sorrir e fingir que está tudo bem, o que inclusive, me lembrou um bom texto da psicóloga Jô Alvim, ” A obrigação de ser feliz nos entristece”, fica a dica de leitura. Seguindo essa premissa, a música segue animada com André quase que falando consigo mesmo, dizendo “sorria mesmo que…”, ela segue com um certo gingado, meio funkeada, dançante. Em certo momento da música, em um estalo, uma tomada de consciência vem sobre ele, o eu lírico percebe o quão tolo é tudo aquilo, e a música acompanha essa reflexão mudando também, e em seguida indo por um som quase Reggae, quase Ska, mesmo sem ter visto André Prando falar dessa influência, me lembra um pouco a fase do “Preço curto…Prazo Longo” do Charlie Brown Jr. Mais uma das baladas, com uma bateria marcada e um riff bem marcante, e um solo de guitarra bem reflexivo. A música fala sobre amizade, a valorização desse momento importante e as vezes passageiro em nossas vidas, parafraseando Renato Russo: “Era assim todo dia de tarde, a descoberta da amizade”, esse dia