Como prometido em nossa segunda edição da Cápsula, o fundador da banda, Jyrki Witch (vocal), e os outros membros atuais, Miss Blueberry (vocal e sintetizadores) e Marko Gravehill (guitarra), falaram com a gente a respeito dos mais de 30 anos do lançamento de The Vampire’s Kiss (1993). Eles comentaram sobre a repercussão do público europeu e brasileiro, além de contarem histórias de bastidores sobre a gravação e o lançamento do material.
Mais uma vez, meus agradecimentos à banda pela gentileza!
Conhecia a banda? Conheceu agora? Conte para a gente o que achou da entrevista e qual é o próximo artista que você quer ver por aqui!
Formação atual: Marko Gravehill (Guitarra), Miss Blueberry (Vocal e Sintetizadores) e Jyrki Witch (Vocal).
Rebobinando
A banda finlandesa foi originalmente criada pelo vocalista e compositor Jyrki Witch e pela cantora, compositora e tecladista Anne Nurmi, que logo após o lançamento do disco deixou a banda para se juntar ao Lacrimosa.
As letras do Two Witches abordam temas como vampirismo, terror psicológico, medo e sexualidade.
Com um som mais cru, rasgado e menos comercial, o Two Witches traz uma tonalidade marcante e única para a música gótica, e esse registro de 93 com certeza merece um local de destaque, alternando entre os vocais de Jyrki e passagens vocais de Anne e Nauku (segunda backing vocal que viria a deixar a banda alguns anos depois) com elementos de darkwave e punk.
The Vampire’s Kiss – O lançamento
Jyrki fez alguns comentários sobre o lançamento do disco antes da entrevista em si; segue na íntegra:
Em 1991, começamos a gravar nosso primeiro álbum de estúdio, Agony of the Undead Vampire part 2, que foi lançado no verão de 1992. Esse álbum saiu pelo meu próprio selo, o Darklands Records.
Enviamos o disco para revistas europeias para resenhas e, para nossa grande surpresa, recebemos críticas muito boas. Ficamos ainda mais surpresos quando surgiram propostas de contrato de gravação de várias gravadoras. Escolhemos a oferta que parecia melhor, enviada pela Music Research GmbH. Eles já tinham um selo subsidiário muito respeitado, o Zoth Ommog (com artistas como Leaether Strip, Bigod 20, X Marks the Pedwalk e Armageddon Dildos). A Music Research prometeu abrir um novo selo especializado em gothic rock, o Talitha Records, e o Two Witches teve a honra de lançar o primeiro álbum por lá. Entre 1993 e 1995, a Talitha Records lançou álbuns de nomes como Aurora (mais tarde conhecido como Aurora Sutra), Sex Gang Children e Screams for Tina.
A Talitha planejava começar conosco relançando o Agony of the Undead Vampire part 2, mas eles queriam mudar tanto a arte da capa quanto o título do álbum. Eles acharam que Agony of the Undead Vampire part 2 era um título longo demais e sugeriram renomeá-lo para The Vampire’s Kiss. Nós concordamos, embora o nome não fosse tão divertido quanto o original. Eles também queriam que gravássemos pelo menos 3 a 5 músicas novas para o disco e deixássemos de fora “We All Fall Down”, que estava no álbum original (usando essa faixa no primeiro lançamento do selo, a coletânea The Myths of Avalon).
O álbum The Vampire’s Kiss foi gravado em três sessões distintas e parcialmente em estúdios diferentes. Primeiro, “Dead Dog’s Howl” e “Mircalla”, gravadas em 1990 (e lançadas como single em 1991); depois as músicas para o CD Agony of the Undead Vampire part 2 no inverno de 1991-1992; e, finalmente, as novas faixas solicitadas pela Talitha na última sessão em dezembro de 1992. Apenas Anne, Nauku, Toby e eu participamos de todas as três sessões de gravação.
O contrato com a Talitha durou três álbuns (The Vampire’s Kiss, Phaeriemagick e Bites) e um CD-maxi (Bloody Kisses), mas o mais importante foi que ele nos abriu portas com a Cleopatra Records nos EUA. Por meio deles, também lançamos três álbuns nos anos seguintes (The Vampire’s Kiss, Bites and Kisses e Wenches, Wytches and Vampyres). Na verdade, The Vampire’s Kiss foi lançado duas vezes nos EUA, cada edição com uma capa diferente (e ambas também distintas da versão europeia da Talitha).
Cleopatra EditionTalitha Edition
O álbum The Vampire’s Kiss foi lançado na Europa na primavera de 1993 e, após o lançamento, a Talitha sugeriu que fizéssemos uma turnê europeia e um novo álbum para o outono daquele ano. O chefe do selo viajou para a Califórnia para tentar nos colocar como banda de apoio na turnê do Shadow Project, de Rozz Williams, mas voltou de mãos vazias e acabou fechando outra turnê de suporte com o Lacrimosa.
Como o som da banda evoluiu desde os anos 90? Suas influências mudaram?
Jyrki:É claro que cada músico trouxe sua própria influência para o som e para as composições da banda. Sou o único que restou da formação dos anos 90. A tecnologia de estúdio também mudou muito, e isso afeta o som. Antigamente, tínhamos que preparar tudo completamente com antecedência e depois íamos ao estúdio apenas para gravar as músicas rapidamente. Se algo desse errado na execução ou ocorresse algum imprevisto, tínhamos que deixar todos os erros na gravação, pois não tínhamos dinheiro para pagar por novos dias de estúdio. Hoje em dia, podemos gravar tudo em home studios.
Nosso guitarrista, Marko Hautamäki, entrou na banda em 2001 e, atualmente, ele também compõe a maioria das nossas músicas. Miss Blueberry entrou em 2017 e toca teclados. Também temos três músicos de apoio para os shows: Alarik Valamo (bateria), Antti Hermanni (baixo) e Haydee Sparks (guitarra).
Ao longo dos anos, minhas influências certamente mudaram de várias formas, mas, em algum momento, elas sempre retornam ao ponto de partida. Ainda gosto das mesmas bandas, livros, filmes e outras coisas que gostava lá nos anos 80.
Marko Hautamäki:Com a evolução da formação ao longo dos anos, todos os novos membros obviamente trouxeram algumas de suas próprias influências. Além disso, toda a cena musical passou por sua própria evolução, e isso também nos afeta como ouvintes e, consequentemente, como compositores. Não acho que existam influências “originais” cujo peso em nossa música tenha diminuído com o passar dos anos, mas agora há muito mais influências misturadas. O Two Witches sempre foi uma banda mais experimental do que as pessoas costumam pensar. No início, havia experimentos com poesia e coisas do gênero. Hoje, experimentamos mais dentro do amplo estilo “gótico” e dos vários elementos musicais inseridos no contexto maior da cena. Dito isso, nosso álbum GoodEvil também apresentou alguns daqueles experimentos poéticos dos primeiros dias, então também não abandonamos nossas raízes nesse sentido.
Miss Blueberry:Eu amo dançar e tento injetar “dançabilidade” em nossas músicas atuais. Gostaria de trazer para as canções mais ritmos que funcionem na pista de dança.
Como você vê a recepção do Two Witches no Brasil em comparação com a Europa?
Marko Hautamäki:Além de o público se comportar de forma muito diferente na América do Sul em comparação com a Europa, estamos vendo uma grande mudança na cena como um todo. A cena gótica europeia tem muita história, mas isso também tende a tornar as coisas um pouco estagnadas. As pessoas tendem a se concentrar nas bandas e artistas pelos quais se apaixonaram lá nos anos 80 ou 90, e não parecem se importar muito com o que aconteceu desde então. Por outro lado, as bandas de goth/darkwave dos anos 2000 em diante parecem ser apoiadas, em sua maioria, por um público diferente. Elas ainda estão na mesma cena, mas as pessoas são, em grande parte, outras. Isso significa que existe basicamente uma divisão entre a “velha guarda” (old school) e a “nova escola” (new school) dentro da cena. No Brasil e na América do Sul em geral (junto com alguns outros lugares), a cena é mais jovem e, embora as bandas influentes sejam as mesmas, esse tipo de divisão não parece tão drástica, o que torna a cena muito mais forte no geral. Para o Two Witches, isso se reflete no imenso apoio e entusiasmo que recebemos do público brasileiro. Esperamos estar de volta aí o mais rápido possível!
Jyrki Witch:Eu não sei por que, mas o Two Witches tem sido mais popular nos países da América Latina do que na Europa desde os anos 90. Especialmente no Brasil, temos sido recebidos com muito carinho. Mas, é claro, nós amamos os países latino-americanos e o nosso público de volta. Se fosse financeiramente possível, gostaríamos de tocar no Brasil todos os anos.
Miss Blueberry:Há públicos muito mais incríveis no Brasil do que na Europa. Embora tenhamos tido uma recepção calorosa na Europa, o acolhimento dos fãs brasileiros tem sido algo realmente especial.
Como foi a saída da Anne Nurmi para o Lacrimosa? Vocês mantiveram contato ao longo dos anos?
Jyrki:A Anne queria ir e ver como era o mundo fora do nosso lar. Ela se juntou ao Lacrimosa e eu dei continuidade ao Two Witches. Nós dois éramos muito jovens na época e o futuro parecia estar totalmente aberto. Agora, ambos construímos nossas próprias carreiras e talvez alguns dos fãs até gostem das duas bandas.
Depois que a Anne saiu, decidi continuar com o Two Witches; a Nauku aprendeu a tocar teclados e também houve algumas outras mudanças na formação. Isso não afetou a composição das músicas ou o trabalho com as letras, mas, é claro, a nova formação ficou um pouco diferente, pois a Anne esteve conosco por sete anos e fez 56 shows com o Two Witches.
Continuamos amigos e costumávamos nos encontrar com mais frequência antigamente — por exemplo, quando a Anne visitava parentes na Finlândia ou quando tocávamos nos mesmos festivais. Nos últimos anos, o contato tem sido esporádico. Muitos anos se passaram e nossas vidas hoje são tão diferentes de quando éramos mais jovens.
O que The Vampire’s Kiss representa para vocês hoje, mais de 30 anos depois?
Jyrki:Eu entendo que o The Vampire’s Kiss é uma parte importante da nossa história e o álbum favorito de muitos dos nossos fãs. Foi o nosso primeiro disco a ser lançado mundialmente e nos ajudou a estabelecer contato com diferentes lugares. Até hoje, tocamos regularmente em nossos shows duas músicas desse álbum, “The Omen” e “Burn the Witch”, e desde 1992, “Agony” tem sido sempre usada como a introdução das nossas apresentações.
Olhando para trás, anos depois, a popularidade desse álbum traz uma sensação boa porque não precisamos fazer nenhuma concessão para que ele acontecesse. Quando estávamos gravando o disco, éramos uma banda tão pequena e desconhecida que pudemos fazê-lo exatamente do jeito que queríamos, sem nos preocuparmos nem um pouco se alguém gostaria das nossas músicas.
Miss Blueberry:Foi um dos primeiros álbuns de goth rock que peguei emprestado na biblioteca quando eu era jovem, e eu me apaixonei por ele. Foi um dos discos que me ajudaram a encontrar meu caminho dentro desta cena. Embora eu nunca tenha imaginado, quando era mais nova, que um dia tocaria nesta banda, é realmente incrível tocar as músicas desse álbum nos shows agora. O goth rock tradicional era e ainda é o estilo mais próximo do meu coração, então esse álbum teve uma influência real no meu gosto musical.
O que vocês têm ouvido ultimamente? Há algum artista que gostariam de nos recomendar?
Jyrki:Costumo ouvir as mesmas coisas de sempre: David Bowie, Christian Death, Bauhaus, Classix Nouveaux, Japan, synth pop dos anos 80, goth rock dos anos 90, The Lords of the New Church, Spiritual Front, Ordo Rosarius Equilibrio, Sir Elwood, Duran Duran e Depeche Mode.
Quando estou compondo, ouço muito dark ambient e os álbuns antigos do Tangerine Dream. Ultimamente, entre os artistas “mais novos”, tenho ouvido Abu Nein, Ariel Maniki & The Black Halos, Kentucky Vampires e SexAndBlood.