Em 31/10/25 a banda emo/post-hardcore De Carne e Flor lançou seu álbum novo intitulado Em Teus Olhos Vejo Fendas. A banda logo mais vai fazer 10 anos de existência. Com algumas mudanças de composição ao longo dos anos, mas sem perder sua essência e o sentimento.
Tive o prazer de poder ouvir esse álbum com toda a calma e amor que ele merece. Demorando tempo demais para escrever essa “resenha”, mas espero que ela reflita um pouco de tudo que eu senti ouvindo essa pedrada. Vou escrever aqui sobre as músicas que mais gostei e que mais se destacaram pra mim.
Um álbum que já começa forte na intro, com as guitarras marcantes e os gritos memoráveis do Bruno Araujo. Acho até reconfortante o Bruno gritar, não só pela técnica, mas porque mesmo o screamo dele chega a ser envolvente. Só essa intro já me dá vontade de ouvir mais, uma ótima porta de entrada para esse grande álbum.
Ouça o álbum na íntegra:
A segunda música, nomeada como A Última Canção do Mundo Não É Essa, que já tinha sido liberada como single em 2023, já começa na mesma vibe da intro, uma coisa muito casada, com uma ideia de continuidade irresistível característica das músicas da DCeF.
Esse novo modo de ouvir apenas algumas músicas soltas e nem sempre o álbum inteiro advindo das plataformas de streaming, se perde. Apesar de eu ser uma das adeptas de ouvir músicas soltas, porque às vezes você só quer ouvir as suas preferidas, a coesão da De Carne e Flor, principalmente no começo do álbum, é algo que sempre me conquista muito e me faz querer ouvir a obra como um todo sempre que possível. Assim você termina apreciando cada música do começo ao fim, tanto pela coerência das músicas quanto pela história a ser contada. É muito bom ver tamanha coesão, cuidado na composição e na mixagem das músicas. Esse álbum conta uma história, uma história muito bonita e triste, a história da banda que foi sendo construída ao longo desses anos todos e de todo o período desde o Teto Não Familiar.
Essa é uma música muito forte, muito a cara da De Carne e Flor. Eu que nem sou de mosh, já fico com vontade de me jogar e me debater no meio da galera, gritos tão viscerais, como um grito de liberdade, como se você estivesse soltando na voz aquilo tudo que te deixa preso. Chega a ser libertador.
Sinos, a terceira faixa, e a que eu mais amei de todas. Ela lembra muito Deafheaven por conta da melodia, os crescendos e arpejos. E isso soa como um elogio gigantesco vindo de mim, pois sou muito fã de Deafheaven e sei que alguns membros da banda também são. Ouvir essa música ao vivo deve ser sensacional e uma experiência catártica. Ela tem todas as características e elementos de sucesso. O tipo de música que eu gostaria de ouvir enquanto pego um ônibus lotado com raiva de tudo e de todos ou querendo estourar janelas e quebrar vidraça de banco. Não que eu vá fazer isso algum dia, foi só uma ideia.
Não vou negar que as guitarras me deram uma vontade de chorar, talvez uma vontade boa, não sei dizer, fico sentimental quando me deparo com uma bela parede de som. Além das letras, gosto muito de ler as letras das músicas, decifrando um novo significado a cada vez. São muito lindas, do disco todo na verdade, poesia pura, sem ser clichê ou querer ser algo que não é. É apenas o sentimento ali falando. Consigo facilmente dizer que essa foi uma das minhas músicas preferidas descobertas nesse ano, quanto mais eu ouço, melhor fica.
E eu continuei ouvindo, e quando mais eu ouvia, mais coisas eu percebia. É de uma vulnerabilidade incrível, como se tivesse se despido de toda vaidade, de tudo e tivesse ali, de braços abertos pra que você pudesse vê-la e conhecê-la. Se essa música fosse uma pessoa, ela seria uma das mais lindas que eu já vi. Segunda feira, 7h da manhã, estação Osasco, vagão lotado e uma lágrima rola enquanto essa música acaba. Se isso não é beleza, eu não sei mais o que é. E toda vez que eu volto nesse texto, ouço essa música e já quero chorar de novo. Como diria Roberto Carlos: são tantas emoções.
Os versos que mais me pegam são:
“A estrada de sete cores
Mencionada por minha irmã
Cuja palavra nunca me falhou
Eu te vi atravessar
Mas a sua história vai viver comigo
Pois fez da minha algo muito melhor
E eu te prometo fazer valer cada lágrima que cai
Ao lembrar de teus olhos
Sorrindo”
Impossível conter o sentimento depois dessa. Que pedrada!
Senti tanto que até perdi a estação. E me faltam palavras pra dizer o quanto eu amei essa música.
Onde Mais Eu Devo Ir? é a próxima faixa, veloz, intensa, forte e voraz. As melodias da guitarra me levam muito pra um lugar próximo do metal e em conjunto com a bateria. Aliás, é sempre bom ressaltar o exímio baterista que o Eliton Si é, gostaria de ter talento que ele tem e braços para poder tocar essas músicas tão bem. Acho as linhas de bateria muito bem construídas, trazendo um sabor especial para as músicas. E também é muito bom relembrar os velhos tempos em que eu era mais metaleira, tudo me levando a um lugar familiar. Faz todo o sentido isso quando você lembra de todas as bandas que os membros gostam e se inspiram.
União do emo, post-hardcore com o metal deu uma mistura bem boa. Quanta música boa a gente faz no Brasil, e isso ainda precisa ser muito mais apreciado e reconhecido. De Carne e Flor é uma ótima representante do nosso país, é uma banda que eu quero muito ver crescer cada vez mais, fazer shows maiores e em mais lugares desse país. E por que não também em outros países? Acho que eles tem potencial pra isso e muito mais.

(em teus olhos) já havia sido lançada em Setembro e mostrava a pedrada de álbum que estava por vir. Repleta de sentimento, não à toa é a música que inspira o título do álbum. Gostei muito dessa música, ela começa suave e vai crescendo na gente, e quando você menos espera está cantando junto.
É uma impressão totalmente minha, porque a gente nunca sabe para quem ou para o que a música foi feita e inspirada. Mas para mim tem um quê de romantismo, na verdade, mais próximo do ultrarromantismo, Lord Byron e Álvares de Azevedo ficariam contentes ao meu ver. Eu gosto muito dessa vibe gótica, dark and mysterious. E esses arpejos suaves junto com a bateria contrastando com a dureza da letra, o peso do baixo e o sentimento pulsante. Dá vontade de cantar até a guitarra, de se deixar levar pela emoção. Já imagino os fãs fazendo um headbanging com essa música e no final os aplausos e gritos animados. Uma excelente música.
Furores Perdidos também é uma das minhas músicas preferidas desse disco. 15 segundos de música e eu já fui muito conquistada. Funcionou pra mim como um lampejo de esperança em meio a escuridão. Sabe quando a melodia era tudo que você queria e precisava e nem imaginava que poderia encontrar? Essa música me trouxe isso, e a música no geral tem esse poder de trazer luz para a nossa vida mesmo nos momentos mais obscuros. E a gente bem sabe como é se sentir triste, desesperançoso e desanimado nesse mundo capitalista pós moderno. Tantos acontecimentos tristes, tanta notícia ruim, tanto cinza, tanto descaso e tristeza. Mas essa música me trouxe um conforto que eu nem imaginava sentir. De fato, nesses poucos minutos de música eu consigo entender que há tanta beleza no mundo mesmo. Sinto um quentinho no coração, já que o Bruno mesmo canta:
“Não há frieza que vá tão fundo
Então, sua vontade, pra onde vai?
Tanto tempo suprimindo
Mas o fogo não se esvai
Sua vontade, pra onde vai
Quando o fogo não se esvai?
Há tanta tristeza no mundo
Que essa cama e o cansaço e as olheiras me caem bem
E ao te ver sucumbir por tão pouco
Deixar tudo morrer aos poucos
Por um dia de silêncio
Não soa tão mal assim
Pois a frieza que nos separa
Se debate, se depara com a vontade de acolher
Seguem lutando eternamente
Sem nunca alguém vencer”
O efeito é imediato headbanging ao som, como se estivéssemos em um show, totalmente envoltos na música e no momento. Eu só consigo pensar que o emo está vivíssimo e o rock alternativo brasileiro vai quebrar tudo e dominar o mundo.
Esses versos são lindos, poesia pura como eu já disse. Fico até sem palavras pra poder descrever o quanto eu gostei. A melodia dessa música me conquistou de primeira, se desse pra tocar essa melodia a cada momento que eu fico triste, eu ia encontrar a cura da minha depressão. Se esse álbum só fosse composto de duas músicas: Sinos e Furores perdidos, eu já ia dizer que era meu álbum preferido do ano e possivelmente da vida. Pois me pego pensando nele sempre que posso. Eu só não ouço mais ele, porque às vezes eu sinto que deveria apreciá-lo como um chocolate bem caro e gostoso, e não são em todos os momentos que a gente pode dar a atenção que ele merece, escutando com atenção e sentindo tudo que ele te provoca.
As Libélulas Insones mais uma vez usando a comparação como elogio já que vou citar uma das minhas bandas preferidas, me traz muito a juventude e rebeldia de Ludovic, um pouco mais metaleiro. Letras muito profundas, muito bonitas contrastando com o peso das guitarras, com os gritos, com a “agressividade” da música. Uma dualidade, contrapondo a doçura da poesia. Dois mundos se complementam como ying e yang. É o grito dos sentimentos que não são mais contidos, a vontade de abraçar a esse poeta que sofre e sente e dizer: eu te entendo.
(vejo fendas) é outro absurdo de música linda, que com 15 segundos já me ganhou também. O vocal do Bruno se destaca muito aqui, vocal limpo, bonito e vulnerável, mostrando sua outra faceta. O verso “no milagre de estar em pé quando tudo quer ruir, mas me perco ao te ver buscar o que não volta e tentar em teu próprio mar se afogar” me pega demais, acho absurdamente lindo e um complemento fantástico ao Teto Não Familiar, como se fosse a parte 2 dessa história.
Se você quer uma aula de fazer um belíssimo crescendo com a música e chegar na explosão perfeita, ouve essa música. E depois desse verso nós temos o screamo de volta, como se a música pedisse, como se clamasse. Eu totalmente me vejo gritando “a evitar pensar em mim quando penso em você”. E a partir desse momento eu só quero gritar até a música acabar.
Acho que o Bruno nem sabe, mas direta ou indiretamente ele me apresentou e eu acabei conhecendo por causa dele, seja por conta das playlists ou de ouvir o que ele ouvia também no lastfm, tantas bandas boas, tantas músicas legais que hoje também fazem parte da minha história e de quem eu sou. E eu espero que ele saiba que ele, junto com a banda toda, porque nada se constrói sozinho, fez músicas tão boas quanto as músicas dos artistas que ele admira. Eu espero que vocês se sintam orgulhosos desse álbum, tanto quanto das outras músicas excelentes que vocês já lançaram e que se vejam refletidos e se admirem como vocês admiram outros artistas por aí. Vocês são tão talentosos e tão bons quanto eles.
Ouça e siga De Carne e Flor:
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