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Nesta 2ª edição – Cápsula: discos perdidos no tempo, temos uma novidade! Agora lançamos um podcast para experimentar outros formatos, ou seja, você pode conferir toda essa matéria por áudio, basta dar o play abaixo, aproveita pra seguir a gente e avaliar esse episódio:
Olá, como vocês estão? Já faz um bom tempo desde a nossa última edição, e acredito que alguns discos da lista não estão mais tão perdidos, com seus artistas de volta com tudo. Vamos recapitular e ver o que aconteceu desde então.
Quatro meses depois do nosso artigo, Fausto Fawcett nos presenteou com o disco “Favelost”, trilha sonora de seu livro de mesmo nome. Antes apenas disponível em um site promocional, finalmente temos esse trabalho incrível disponível também nas plataformas digitais. Além disso, Fausto tem feito diversas aparições em casas de show de São Paulo, com vários shows e participações especiais e autógrafos. Sempre bom ficar de olho nas redes para ver quando vai ser o próximo evento.
Já o MopTop anunciou seu retorno com um show na casa Augusta Hi-Fi, em 12 de julho (2025), com um disco fresquinho, que inicialmente se chamaria “Ghosts”, mas que por fim se chamou “Long Day”.
Espero que se torne uma tradição ter notícias de artistas incríveis após uma edição de cápsula.
Para acompanhar essa edição, teremos, em um segundo momento, entrevistas exclusivas com dois artistas da lista: a Ana Carolina Fontoura (shadoW) e a banda Two Witches. Quero agradecer imensamente à Ana por ter sido tão receptiva com a gente e disposta a compartilhar um pouco do seu trabalho e das ideias por trás do projeto. Agradecer também ao Jyrki Witch do Two Witches, que tão prontamente topou participar junto com a Miss Blueberry e o Marko Hautamäki, contando histórias incríveis dos bastidores do lançamento do disco de que falaremos nesta edição, com um incrível número de detalhes, além de responder às nossas perguntas.
Gostou dessa edição? Não esqueça de prestigiar os artistas seguindo-os nas redes sociais, indo aos shows e comprando e ouvindo as músicas.
David Sylvian – Secrets of the Beehive (1987)

David Sylvian é um músico e compositor inglês que ficou bem conhecido nos anos 70 por fazer parte do movimento new romantics com a banda de new wave Japan.
Em 1987, David Sylvian lançou seu terceiro álbum solo, “Secrets of the Beehive”, cheio de poesia e existencialismo. A voz de Sylvian penumbra entre um instrumental cheio de orquestras, trompetes, fortes percussões, sintetizadores, do rock ao jazz, que não deixam o disco anacrônico, muito menos datado, mas que ainda refletem um pouco do som de seu tempo.

Envelhecendo como um bom vinho depois de quase 40 anos de seu lançamento, cheio de nuances e segredos que se desfazem a cada ouvida, até hoje, depois de tanto tempo ouvindo, sempre me encontro descobrindo uma faixa nova e a repetindo vez após outra. (Atualmente estou preso em Let The Happiness In).
Um disco melancólico, sofisticado e que exige um pouco do ouvinte, mas entrega muito, que continua a ser um clássico e me assusta o pouco que é citado.
Two Witches – The Vampire’s Kiss (1993)

Lembro de estar voltando da escola ainda no ensino fundamental, há muitos anos, quando eu ainda tinha cabelo e emulava o Robert Smith com meu cabelo bagunçado e avoado sobre o rosto, enquanto tocava “Disintegration” no fone de ouvido e eu achava que aquilo era o máximo do “rock gótico”. Até hoje ainda amo The Cure e com certeza a banda tem seu valor dentro da cena, mas após andar mais algumas quadras, uma guria do ensino médio, Bruna (se você estiver lendo isso, sou muito grato pelas bandas que me apresentou naquela época), me para na rua e começa a conversar comigo como se me conhecesse há anos. Fizemos amizade logo de cara, e alguns dias depois ela me mandaria um zip ainda no falecido MSN de um álbum incrível de uma banda até então desconhecida pra mim: Two Witches e seu “The Vampire’s Kiss”.

A banda finlandesa foi originalmente criada pelo vocalista e compositor Jyrki Witch e pela cantora, compositora e tecladista Anne Nurmi, que logo após o lançamento do disco deixou a banda para se juntar ao Lacrimosa.
As letras do Two Witches abordam temas como vampirismo, terror psicológico, medo e sexualidade.
Com um som mais cru, rasgado e menos comercial que bandas como Sisters of Mercy (que eu amo), mas um pouco mais palatável que Poésie Noire, por exemplo, o Two Witches traz uma tonalidade marcante e única para o gênero, e esse registro de 93 com certeza merece um local de destaque, alternando entre os vocais de Jyrki e passagens vocais de Anne e Nauku (segunda backing vocal que viria a deixar a banda alguns anos depois) com elementos de darkwave e punk.
No underground, a banda continua na ativa até hoje, lançando álbuns e focando mais em apresentações ao vivo. Inclusive gravaram em São Paulo um disco ao vivo do show que fizeram por aqui em 2019, lançado em 2020 pela gravadora brasileira Deepland Records, chamado Deepland (Live In São Paulo – Brazil).

A banda foi super receptiva e falou com a gente sobre o disco e a repercussão dele ao longo dos anos, além de contar algumas histórias interessantes dos bastidores. Em breve iremos publicar, fiquem de olho.
Shadow – It only hurts when we stop laughing (2012)

Shadow é uma one woman band, um projeto solo de uma única pessoa responsável por tocar todos os instrumentos que você escuta na gravação. Idealizado por Ana Carolina Fontoura, a luso-brasileira conhecida como Shadow, lançou em 1º de janeiro de 2012 seu trabalho que considero o mais visceral e ressonante até então. Ao longo de seis faixas cruas e hipnóticas, somos levados ao mais profundo íntimo de uma cantora misteriosa, reservada e ainda assim cheia de sentimentos intensos e pensamentos a compartilhar com o mundo.

O EP, “It Only Hurts When We Stop Laughing“, conta com letras em português e outras em inglês, todo produzido de forma independente em seu quarto, com tons de post-black metal, depressive rock e algumas misturas que hoje em dia me remetem muito ao que a banda Germ fez quase dois anos depois, no finalzinho de 2013, com “Grief“. Quem gosta também de bandas como Alcest ou Amesoeurs com certeza precisa escutar.
Devil Doll – Dies Irae (1996)

Devil Doll é um projeto idealizado pelo ítalo-esloveno Mr. Doctor (Mario Panciera) e o disco “Dies Irae” é uma grande ópera composta por atos. Todas as vezes que escutei esse disco, ele vinha unificado em uma única faixa de áudio. Mas pelo que soube, a edição física dele contém as separações em “partes”, sendo ao todo 18 partes e uma extra escondida ao final da décima oitava.

“Dies Irae” é uma ópera gótica, com elementos de rock progressivo, orquestra, darkwave, metal e algo que amo: monólogos. O disco, assim como o projeto Devil Doll, é cercado de misticismo, mistérios e lendas. De acordo com algumas fontes, durante a gravação do disco ocorreu um incêndio no estúdio e todas as cópias do disco foram perdidas, o que fez Mr. Doctor, misterioso criador do projeto, recomeçar toda a gravação do completo zero. Portanto, a versão que temos disponível já é uma versão alternativa do que o disco já fora um dia.
Alguns trechos desse disco me lembram muito Nina Hagen, Sopor Aeternus e até Switchblade Symphony.
O registro de que falamos aqui é o último disco de estúdio da banda, mas em uma entrevista para a Burnn Magazine em 2008, Mr. Doctor chegou a dizer que tem material pronto do Projeto Devil Doll, mas que não pretende lançá-lo tão cedo e que havia perdido interesse pela produção musical como um todo.
É muito impactante e cinematográfico ouvir esse disco, ele é muito profundo e cheio de nuances, como um clássico do cinema expressionista, as cenas se formam parte após parte conforme você permanece no espetáculo.
As letras, todas muito poéticas, transcendem a música, com inspirações que vão de Edgar Allan Poe, Emily Brontë até Emily Dickinson, conta também com a incrível soprano croata Norina Rodavan.
