Marina Mole é coisa séria: Ouvindo Azucrim

Artista/Banda: Marina Mole Disco: Azucrim Gênero: Rock, açúcar, tempero e tudo que há de bom Ano: 2026 Destaques: Descida, Azucrim, Sonho de voo, Luneta azul, O disco todo Faz um tempo que não apareço por aqui, muito por falta de tempo, muito por falta de mim, ao menos a parte de mim que escreve sobre música. Mas o disco e a artista de que vou falar hoje me fizeram ter vontade de escrever sobre isso novamente, o que é bom. Não sei se o texto vai ser bom (se é que alguém vai ler isso), mas fica aqui para a posteridade. Marina Mole e seu Azucrim é coisa de outro mundo, é coisa séria, já dizia Alta Fidelidade. Marina é de Brasília, mas já fixou raízes em São Paulo, e devo deixar claro que não conhecia a fundo o seu trabalho. Esse é o primeiro disco que escuto e é claro que irei reparar essa falta de caráter logo mais. O disco começa com a faixa “Descida”, com um berrante? Já senti um tom bem humorado nesse começo, o famoso triste alegre (gosto). Me lembrou algumas coisas que o Beck fez, o que já me prendeu de cara. Com um riff hipnotizante e um refrão que não sai da cabeça, você termina a música querendo ouvir de novo (devo ter ficado um tempo nessa faixa, admito). Seguida pela faixa que dá título ao registro, “Azucrim”, já conseguimos ouvir melhor a voz de Marina, com uma letra lindíssima, um verdadeiro poema existencial, seguimos ela em uma busca por si mesma. Lembrei do refrão da Sara Não Tem Nome em “Pare”. De alguma forma dá para traçar um paralelo entre essas músicas? Nunca falei com a Marina pra saber, mas gostei de imaginar que as duas dialogam através dessas canções. Gosto muito de como a Marina se aprofunda nos versos; até tem as repetições do refrão, mas conseguimos visualizá-la indo até as últimas consequências, dado que é tudo muito descritivo. Esse trecho, também, é uma pedrada: Vamos acompanhando a poesia de Marina ao som de um riff muito gostoso, meio faroeste? Foi o que me lembrou: consigo imaginar ela andando e o feno voando atrás numa cidade abandonada. “Sonho de voo”, a terceira faixa, continua num ritmo muito animado, com algumas inserções de vocais em coro que melhoram muito a música ao longo da viagem. A bateria, também bem marcante, deixa tudo ainda melhor, porque o tempo todo você fica empolgado e mexendo. Mesmo com a letra profunda, é muito boa essa mescla, porque não torna a escuta pesada ou densa; vira uma experiência onírica, como se Marina estivesse nos contando uma história, um “era uma vez”. Consigo imaginar fácil algo como “Era uma vez, Marina, que, como Ícaro, voou muito perto do sol”; dá vontade de pegar na mão da Marina e sair voando por aí mesmo. Imagino que não seja sobre isso, mas essa letra me lembra alguns casos de dissociação que tive. É realmente a sensação de estar se olhando fora do corpo, vendo toda a cena, e acho que por isso me pegou tanto também. Inclusive, tem um filme muito bom com o Matthew Perry (isso, o Chandler de Friends) chamado Numb, que retrata muito bem esse sentimento; fica a recomendação. A quarta faixa, “Luneta Azul”, é muito intensa. Não sei quais as influências de Marina, mas me lembrou MopTop, cheguei a ler que essa música era Surf Rock, mas como não conheço nada desse gênero… (o que vocês acham?) não me arrisco. Com as guitarras rápidas surge uma mistura bem divertida de inglês e português com uma letra cheia de referências, e o instrumental ainda seguindo a consistência das músicas anteriores. Já em “Coração Remendado”, Marina aprofunda a experimentação sonora, com uma música que lembra canções retrô, a jovem guarda dos anos 60 mas com um tom contemporâneo, algo que poderia ouvir em um filme da sessão da tarde? (e falo isso não como um demérito, eu amava os filmes da sessão da tarde de antigamente) bem leve e agradável. “Alô, tudo bem?”, a sexta faixa, me fez querer muito uma parceria entre Marina e Sara não tem nome, acho que ia ficar incrível. (já falei isso, mas ok) “Cidade ou estrela”, a próxima faixa, carrega um grito entalado, arrancado pra fora. Gosto do jeito que a Marina grita, como ela coloca as coisas pra fora, do jeito dela, sem vergonha, sem se conter, mas de alguma forma ainda é contido, quase um cochicho, um segredo? não sei explicar bem, mas me deixa de alguma forma muito confortável. Gosto como tem muita coisa acontecendo na música, me dá uma sensação de ficar pensando em várias coisas, um filme passando na cabeça, quando a gente tenta organizar o pensamento, ansioso por algo? ai então, depois de um tempo você joga no papel, tudo aquilo que estava preso dentro de você. Essa música tem algo visceral que me atrai demais. “Slowdancing” é incrível, tem alguns trechos de spoken word que me fizeram saltar da cadeira, essa não dá para ficar parado. Me lembrou Flaming Lips em algumas inserções (mas mais pesado). Acho impressionante a capacidade da Marina de fazer um som que poderia ter sido lançado 10 anos atrás e ao mesmo tempo ontem. Eu tenho a sensação de que esse disco vai envelhecer muito bem. A faixa nove é a mais densa do disco,“Terrível”, dá uma certa agonia com o riff que fica martelando e o ritmo vai aumentando, aumentando, aumentando, aumentando, aaaa. Adoro os sons diferentes que a Marina consegue entregar em cada faixa, ela adiciona uma espécie de grito nos trechinhos finais que dão um toque muito especial para a música. Um assombro, o absurdo. “Fúria leve” fecha muito bem o disco, continua condizente com todo o material, mas tem algo mais clean? Ela abraça de vez o clima onírico, gosto muito do que ela diz, a forma com que ela deixa palpável um sentimento é muito diferente, tudo que dói é muito presente, você